Monday, 25 de June de 2018

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PRIMÁRIAS EUA

A revolução política das jovens americanas e por que elas escolheram Sanders

Campanha de Sanders impulsiona as primárias do Partido Democrata para um debate mais progressista

Por Daniel Angelim e Alana Moraes | 16/02/2016

Até muito pouco tempo atrás, Hillary Clinton era inquestionavelmente a maior liderança eleitoral entre as jovens eleitoras democratas. No entanto, depois de meses de campanha e de duas etapas das prévias partidárias, o panorama é bastante diferente. As apoiadoras de Hillary, que é a única mulher (entre democratas e republicanos) na disputa, parecem ter mudado de opinião e são a principal “surpresa” positiva entre os apoiadores e apoiadoras de Bernie Sanders.

Sanders

O candidato democrata às primárias presidenciais dos Estados Unidos, Bernie Sanders, em Portsmouth no último dia 7. Foto:AP/John Minchillo.

O contra-ataque de Hilary tem sido agressivo. Sua estratégia para reconquistar a confiança das jovens passa pelo compromisso público de incorporar as demandas do movimento feminista, que nunca conseguiu espaço nas gestões democratas. A narrativa que a mensagem de Clinton tenta construir – de uma pioneira do feminismo que tem um plano “factível” e “viável” – não tem funcionado. As jovens eleitoras progressistas têm visto Hillary como uma mãe super protetora, antiquada e adaptada ao sistema. A estratégia do senador socialista, tal como a de Obama, busca colocá-la como uma candidata centrista e comprometida com as grandes corporações de Wall Street.

Na prévia de New Hampshire, finalizada na última terça feira, 9 de fevereiro, Sanders demonstrou sua força. De acordo com as sondagens prévias feitas pela rede de TV NBC, 85% dos eleitores com menos de 30 anos votaram Sanders. Desse total, o voto feminino contribuiu com impressionantes 82%. Um nítido contraste com o domínio de Hillary Clinton entre as mulheres mais próximas de sua própria idade.

Esses números são importantíssimos para a campanha do senador de Vermont, tendo em vista que estudos sugerem que as millennial women (como são chamadas pela imprensa dos EUA) são o grupo demográfico mais firmemente engajado nesta eleição. Grupo que antes de começar a corrida, na avaliação da imensa maioria dos analistas, estaria “na conta” da campanha de Hillary.

A mobilização dos jovens (mulheres e homens) tem impulsionado um elemento que é chave na dinâmica eleitoral nos Estados Unidos: o financiamento. Uma parte considerável dos 15 milhões de dólares arrecadados pelo senador veio de pequenas doações dos 400 mil doadores individuais que já contribuíram. Nas primeiras horas da primária democrata de New Hampshire, sua campanha pediu doações de US$ 3 para ajudar “a levar a mensagem, de Wall Street a Washington, do Maine à Califórnia, que o governo pertence ao povo, não a um punhado de bilionários”. A mensagem parece ter funcionado. 150 mil pessoas doaram US$ 5,2 milhões em apenas 18 horas. Esses dados alimentam a imagem de Sanders como o único candidato anti-lobby no flanco democrata, bem à esquerda da concorrente em relação a Wall Street e à política externa.

Mesmo demonstrando força na arrancada, diferentes analistas indicam que Hillary permanece favorita. Ela detém (ainda) a preferência entre os democratas mais conservadores, entre os negros e negras e, principalmente, entre a imensa comunidade latino-americana. De qualquer modo, Sanders já pode ser considerado um vitorioso por ter movido a candidatura Clinton para a esquerda. Eles disputam o apoio de duas figuras fundamentais: a senadora Elizabeth Warren, de Massachusetts, e o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, ambos no espectro mais progressista do partido. Para ter alguma chance de receber esses apoios, a ex-secretária tem defendido a ampliação de programas de combate à desigualdade social e de redução da pobreza nos EUA, temas caros a campanha de Sanders.

A intensa politização gerada pelo processo eleitoral em curso nos EUA levanta muitas questões para toda a esquerda no mundo. A primeira delas é que o discurso da radicalidade, a possibilidade de ruptura com o sistema capitalista e a volta do imaginário do “socialismo” como uma alternativa de justiça e de “democracia real” tem se mostrado eficaz. Sanders consegue se conectar com os problemas da vida cotidiana, as angústias dos e das jovens que saem das universidades sem garantia de emprego e já endividados. A campanha também compreendeu que lutas importantes como aquelas do Occupy Wall Street e também o ativismo negro do Black Lives Matters expressam o grito de uma geração que sabe muito bem que o sonho americano é um pesadelo cheio de armadilhas, um jogo cujas regras são feitas pelo 1%. Se os espanhóis do Podemos fazem um debate de que é preciso romper com as velhas dicotomias entre esquerda e direita ou de que é preciso muito cuidado para voltar a falar em “socialismo”, Sanders nos tensiona de dentro do coração do sistema a pensar que, talvez, não devêssemos abrir mão da radicalidade, mas a tarefa principal é pensar como ela pode se conectar com a vida das pessoas comuns. David Graeber, em seu excelente livro sobre o Occupy Wall Street, Um projeto de democracia, lembra de uma brilhante frase do George Orwell que diz que “você sabe que está na presença de um sistema político corrupto quando seus defensores não conseguem chamar as coisas pelos seus devidos nomes”. Chamar as coisas pelo próprio nome foi um esforço permanente do movimento Occupy e que é agora, justamente, a essência da estratégia de Sanders.

Por fim, a questão do feminismo e do ativismo das jovens mulheres emerge também como um aspecto incontornável. Depois de quase duas décadas de um feminismo capturado pela agenda-ONU, pelo crescimento das ONGs e das “políticas de gênero” (cujo retrato mais bem acabado é a Hillary) , as jovens feministas norte americanas também parecem estar tomando uma importante decisão. O feminismo precisa voltar a discutir a questão do poder e como ainda é possível desestabilizar os modos de funcionamento do sistema capitalista, suas armadilhas, capturas, formas de governar nossas vidas cotidianas. Incomodar. Um feminismo que sabe que não nos bastará apenas “mais mulheres no poder” para que as coisas mudem, mas sim, mais mulheres – e homens – que compreendam o feminismo como uma prática radical de estranhamento do poder, de emancipação e autonomia.

Com o “acontecimento Sanders” nos parece cada vez mais evidente que novas receitas estão sendo compostas e circulando entre ativistas no mundo todo – do Occupy Wall Street até o 15M espanhol passando pelas ocupações nas escolas paulistas. Alguns ingredientes se fazem hoje mais indispensáveis: 1) Para que o jogo da política de representação se altere é preciso a desobediência das ruas. 2) Não é possível mais separarmos “classe”, “raça”, “gênero” como substâncias puras. A nova rebeldia é uma composição permanente entre as potencialidades de combate de todas as experiências de opressão e seus protagonismos. 3) O feminismo é hoje um lugar indispensável na luta contra os poderes constituídos e na construção de outras formas de organização. Novas receitas, composições compartilhadas e a urgência de experimentar um outro mundo agora.

 

Daniel Angelim é militante do Arrua e integrante do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI. Alana Moraes é militante do Arrua.

Publicado originalmente por Podemos Mais.

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