sexta, 15 de dezembro de 2017

Brasil no Mundo

Contribuições para a Política Externa Brasileira

receba a newsletter

busca no site

AMÉRICA DO SUL

Análise: Fuga de senador é ápice de escalada de maus momentos na relação Brasil-Bolívia

Por Monica Hirst | Folha de S. Paulo | 31/08/2013

O episódio da fuga do senador Roger Pinto Molina é a culminância de uma escalada de maus momentos do relacionamento Brasil-Bolívia.

O envolvimento de diplomatas e políticos do Brasil no caso evidencia o grau de entrelaçamento entre os países.

Não se trata de articulação fortuita, mesmo que se manifeste em circunstâncias de torpe improvisação e risco. É resultado de abrangente costura bilateral que envolve interesses econômico-comerciais, político-diplomáticos e militar-policiais.

As condições assimétricas em que cada âmbito se configura fazem com que o resultado prático seja uma formidável capacidade de intervenção do Brasil em assuntos internos da Bolívia.

Trata-se de vizinho com o qual se manteve, até o início do século, relação marcada pela distância política e desdém econômico. A partir de 2003, o vínculo foi se ajustando às novas prioridades do Brasil em matéria de política externa, interesses energéticos e segurança pública.

A vitória de Evo Morales em 2006 foi vista pelo governo Lula como a da democracia boliviana, que favoreceria uma era de inclusão social, semelhante à do Brasil. Logo foi aplacado o impacto para a Petrobras da lei de nacionalização dos recursos energéticos, em reconhecimento à sua importância para a soberania do Estado boliviano.

Além do perdão de 95% da dívida com o Brasil, foram oferecidas à Bolívia linhas de crédito do BNDES para investimentos e estimuladas as transações comerciais bilaterais. E iniciou-se um abrangente programa de cooperação horizontal.

O relacionamento bilateral ganhou nova densidade.

O Brasil tornou-se ator com presença em todos os temas relevantes da agenda boliviana, o que ampliou suas responsabilidades e obrigava a um cuidadoso diálogo com o governo de Evo Morales.

A ação de diversos ministérios e Estados fronteiriços, bem como os interesses brasileiros em temas como exploração e exportação de recursos energéticos, obras de infraestrutura, desenvolvimento agrícola e combate ao narcotráfico, traduzia-se em influência em áreas de valor estratégico para a Bolívia.

Essa centralidade passou, em anos recentes, a ter cada vez menos reconhecimento no governo brasileiro.

Contratos energéticos foram reduzidos, projetos de cooperação foram suspensos e visitas presidenciais se viram postergadas. E cresceram as visões defensivas de movimentos sociais bolivianos diante de impactos ambientais e econômicos das ações de grandes empresas brasileiras. Além da reativação de sentimentos antibrasileiros, o cenário tornou-se propício a incidentes e imprevistos (como a fuga do senador). E, obedecendo à lógica da assimetria de poder, seria de esperar que estes seriam cometidos pelo lado mais forte.

 

Publicado originalmente por Folha de S. Paulo.

registrado em:

VEJA TAMBÉM

  • Embaixada não é DOI-Codi e nem a Casa de Saboia Embaixadas são as missões diplomáticas que os países mantêm em outros países. As construções que as abrigam são, em geral, bastante confortáveis.
  • Elitismo encastelado A cada dia, fica mais evidente o verdadeiro motivo do envolvimento de diplomatas brasileiros na fuga no senador boliviano Roger Pinto: o (...)
  • O Febeapá do Pinto O Brasil é um país acostumado aos Febeapás. Volta e meia surge um, para desespero dos ouvidos de bom senso.