sexta, 22 de setembro de 2017

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BRASIL-CHINA

Brasil tem oportunidade única de aproveitar novo espaço da China

Por Giorgio Romano | 22/05/2015

Quando o centro do dinamismo passou do Reino Unido para os Estados Unidos, o Brasil posicionou-se rapidamente para tirar o melhor proveito dessa transformação. Hoje, o mundo está passando por outra transformação, que aponta para a coexistência de dois polos de dinamismo, a China e os EUA.

A presidenta Dilma Rousseff e o primeiro-ministro da China, Li Keqiang, durante cerimônia de assinatura de atos, no Palácio do Planalto. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

A presidenta Dilma Rousseff e o primeiro-ministro da China, Li Keqiang, durante cerimônia de assinatura de atos, no Palácio do Planalto. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Os desdobramentos da crise financeira de 2008 e 2009 e, em seguida, a confirmação da China como segunda economia do mundo, à frente do Japão, revelaram esta realidade. Mas, com a nova política do presidente Xi Jinping, a China começa a projetar de fato seu espaço de atuação.

A nova política econômica interna está sendo acompanhada de uma política externa proativa. Se a primeira grande abertura, a partir de 1979, teve como objetivo atrair investimentos, agora o foco é abrir mercados externos para investimentos chineses.

Isso implica a mobilização das enormes reservas internacionais –até hoje destinadas passivamente a financiar o endividamento dos EUA– para fazer investimentos externos diretos, em particular em projetos de infraestrutura, de preferência por meio de participações em empreendimentos locais.

Fazem parte disso também a internacionalização do renmimbi, superando a lógica de moeda desvalorizada, e superavit na balança comercial, para fazer reservas em dólar americano.

A China quer deixar de ser o coadjuvante do capitalismo norte-americano e pretende ocupar o seu lugar com sua moeda e seus projetos para as mais diversas regiões do mundo.

Internamente, isso deve permitir uma gradual transferência do eixo dinâmico dos investimentos em indústria pesada (hoje com supercapacidade crônica) para investimentos voltados ao consumo e a bens públicos que melhorem a qualidade de vida.

Aqui entra a política externa ativa, na qual o Brasil ocupa um papel de destaque. Em curto tempo, a China lançou um conjunto de iniciativas, sobretudo em torno de uma Rota da Seda para o século 21, que pretende mobilizar justamente investimentos em infraestrutura e, ligados a estes, em atividades produtivas de projetos que englobam Ásia, Eurásia e África.

A visita do primeiro-ministro Li Keqiang, acompanhado de uma grande comitiva de empresários, é a terceira para a América Latina desde que a nova liderança tomou posse e a segunda em menos de um ano para o Brasil. Deve ser entendida como parte desse novo momento.

Há uma clara percepção, por parte da China, a respeito do potencial do Brasil, segunda maior economia do grupo Brics, e de seu papel estratégico para uma presença na América Latina.

Para o Brasil, trata-se de uma oportunidade única. Já há muitos casos positivos da presença chinesa –por exemplo, o envolvimento do State Gride, que deve liderar a construção da linha de transmissão de Belo Monte para o Sudeste, diminuindo, de forma significativa, as perdas de transmissão devido à sua excelência tecnológica.

O domínio de engenharia e tecnologia para construção de trens e metrô –600 quilômetros construídos somente em Pequim–, entre outros, pode ajudar a superar exatamente um dos maiores entraves atuais para o desenvolvimento brasileiro.

Sem dúvida, é necessário um esforço conjunto do governo brasileiro, de entes federativos, de empresas e da academia para aumentar a capacidade de aproveitamento desse potencial. O sucesso da parceria depende da visão de médio-longo prazo de ambos os países, considerando interesses econômicos e geopolíticos.

 

Giorgio Romano é coordenador do curso de relações internacionais da Universidade Federal do ABC e integrante do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.

Publicado originalmente por Folha de S. Paulo.

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