quinta, 23 de novembro de 2017

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GOLPE E POLÍTICA EXTERNA

Uma autocrítica necessária: o Brasil do golpe

Ao adquirir baixo perfil na política externa, o governo Rousseff abriu espaço para a consolidação, no governo interino, das tendências que reduzem o protagonismo internacional do Brasil

Por Cristina Soreanu Pecequilo | 01/06/2016

O Brasil de maio de 2016 é um país em crise na economia, na política e na sociedade e seus valores. Dos panelaços anti-Dilma Rousseff à intolerância com o empoderamento social da era Lula (2003-2010) e ao gabinete de homens brancos e de meia idade do recém-empossado vice-presidente Michel Temer, a cronologia do golpe revela nos revela um país dividido.

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30/05/2016- Brasília- DF, Brasil- A presidenta Dilma durante lançamento do livro “A resistência ao golpe de 2016”, no memorial Darcy Ribeiro na UNB. Foto: Lula Marques/ Agência PT

Revela também uma nação polarizada, que foi ignorada e muitas vezes tolerada em seus sinais de racismo, homofobia, sexismo e violência verbal, disseminados pelas mídias e relações sociais, escondida em um discurso contra a corrupção.

O medo, o preconceito e a ignorância venceram as forças progressistas no Golpe de Maio e passam, nestes primeiros dias do governo Temer, por uma sorte de alívio e ressaca: parece que finalmente a revolução social e estrutural brasileira interna e sua projeção externa poderão ser finalizadas e o país voltará a estancar-se nos anos 1990.

Sabe-se até onde vai o Brasil de Temer: internamente, as tentativas cíclicas de desmantelar o Estado e suas políticas de bem-estar ganharam uma nova voz. Sob o signo do ajuste fiscal e a necessidade de redução do gasto público, a agenda neoliberal retorna.

Além das medidas imediatas, com o aumento de impostos, corte em recursos para a saúde, educação, infraestrutura, e programas sociais em geral, é alta a expectativa de que reformas mais profundas nos direitos civis, laborais e sociais possam ser implementadas.

Temas como a terceirização dos serviços e a flexibilização do regime de trabalho são recorrentes no imaginário do empresariado brasileiro, sendo apontados como solução para seus problemas de competitividade e lucro.

Na frente externa, o mito das relações Norte-Sul, da modernidade dos acordos de livre comércio, como o Tratado do Pacífico, liderado pelos Estados Unidos, prevê a elevação do poder nacional e a reinserção político-econômica atada aos Estados Unidos e à Europa Ocidental. Esta visão apolítica e instrumental relega às relações internacionais a uma opção por ser uma nação comerciante.

O Brasil seria apenas um carona dos grandes centros, rebaixando seu poder. Esta visão se relaciona com a busca de vantagens econômicas e de uma perspectiva que nega a real identidade do País: uma nação latino-americana, líder do Mercosul e da Unasul, protagonista no Terceiro Mundo.

Ignorar esta vocação é ignorar quem somos e tudo o que conquistamos com nossos vizinhos e nações amigas. Não deveríamos nos livrar da Cláusula Democrática destes organismos neste momento, mas são poucas as vozes que se levantam. O objetivo é desprezar a mudança: desde o fim da Guerra Fria em 1989, o sistema de governança multilateral criado pela hegemonia estadunidense pós-1945 não se via tão confrontado. Os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o Novo Banco de Desenvolvimento, ações destas potências, colocaram em xeque tradicionais mecanismos de poder, promovendo a democratização das relações internacionais, com ênfase na cooperação Sul-Sul.

Contudo, o problema não é Temer perseguir as metas anunciadas, isso já era esperado. O grande ponto do estrangulamento foi o governo Rousseff, que deu espaço para estas tendências. Desde 2011, a política exterior assumiu uma trajetória de reaproximação com os Estados Unidos (e o ilusório acordo Mercosul-UE), despolitizando-se.

Este baixo perfil nos distanciou da liderança sul-americana e silenciou frente às muitas crises. Graves tensões com o governo de Barack Obama (espionagem por parte de suas agências de segurança) foram superadas.

Internamente, a passagem do primeiro ao segundo mandato foi o ponto crucial: quebrou-se a coalizão popular de 54 milhões de votos que reelegeram o governo de Dilma, optando pelos outros 51 milhões que não o fizeram.

Se hoje Temer governa o Brasil, é porque as portas foram abertas devido a opções estratégicas equivocadas ao deixar de lado o projeto iniciado em 2003 e não levá-lo adiante, para que tivesse bases mais sólidas. Nestas últimas semanas, fomos surpreendidos com políticas de cortes sociais enquanto íamos às ruas para defender a democracia e o Estado de Direito. Mas veio a derrota do golpe, relevante para um renascimento.

Afinal, outras batalhas virão, e a ‘vantagem’ de estar distante do poder é repensar caminhos, com uma necessária autocrítica.

 

Cristina Soreanu Pecequilo é Professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo. Autora do livro “O Brasil e a América do Sul” (2015).

Publicado originalmente no site da Télam. Tradução livre da Equipe BnM.

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