quinta, 23 de novembro de 2017

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AMÉRICA LATINA

“Financiamento para o Porto de Mariel é investimento estratégico”

Entrevista com José Carlos de Assis

Por Elze Rodrigues e Daniel Martins | 10/10/2014

Desde 2009, quando do acordo entre os governos brasileiro e cubano para a reforma do Porto de Mariel, situado nas proximidades de Havana, opiniões a respeito divergem na mídia. Há os que apoiam o empréstimo dado pelo BNDES visando o retorno do investimento no plano doméstico e existem também aqueles que alegam que tal transação é incompatível com as carências estruturais pelas quais o País passa no momento. Já para o Governo Brasileiro, o investimento é estratégico.

O projeto, realizado pela Odebretch em consórcio com a estatal cubana Quality custará 957 milhões de dólares, sendo 802 milhões desse montante gastos no Brasil na compra de bens e serviços. A primeira fase de Mariel foi inaugurada em janeiro desse ano com a presença dos presidentes de Brasil, Cuba, Venezuela, Bolívia, Guiana, Haiti e a primeira-ministra da Jamaica. O discurso de Dilma Rousseff na ocasião seguiu o tom otimista que esteve presente desde o início do projeto e focou nas oportunidades que advêm da modernização do Porto e da parceria Brasil-Cuba. Segundo ela, “são grandes as possibilidades de desenvolvimento industrial conjunto, por exemplo, nos setores de equipamentos para a saúde, e de medicamentos, vacinas, nos quais a tecnologia de ponta é dominada por Cuba”.

Ainda no início deste ano, o PSDB lançou uma nota em seu site a respeito do financiamento do BNDES ao porto em questão. O partido afirmava que os recursos que estavam sendo direcionados para Cuba e Venezuela “eram os que faltavam para obras de infraestrutura de transporte no Brasil”. A declaração é contraditória se levarmos em consideração algumas das atividades realizadas pelo governo Fernando Henrique Cardoso.

“(…)se trata de um investimento estratégico porque Mariel representará, e na verdade já representa, um ponto de apoio ao comércio internacional do Brasil voltado tanto para o Atlântico quanto para o Pacífico. É preciso encarar esse empreendimento do ponto de vista econômico e comercial, insisto, sem viés ideológico.”

O Relatório Anual do BNDES em 2000 aponta que o apoio do banco às exportações de ônibus de turismo e urbano para Cuba somaram cerca de US$ 28 milhões. No mesmo documento ainda é destacado “o financiamento concedido para a aquisição de 125 ônibus Busscar com mecânica Volvo, utilizados na dinamização da atividade turística desse país, no valor total de US$ 15 milhões”. Também constam o financiamento do projeto da Linha IV do metrô de Caracas (Venezuela) pela Odebretch, contemplados pela banco no valor de 107,5 milhões. As boas relações com Cuba são históricas e se normalizaram a partir de 1985 com a redemocratização e o reatamento diplomático e desde então passaram a ser uma constante. O governo FHC também manteve laços cordiais com o governo de Chavéz, inclusive enviando carregamento de gasolina em dezembro de 2002, quando a Venezuela enfrentou uma greve petroleiros. A parte de todas estas questões, o partido também ignora nesta nota o fato de que o governo FHC investiu relativamente pouco na diversificação e modernização de outros modais – aquaviário e ferroviário – o que gerou um desequilíbrio ainda maior de nossa matriz de transporte fazendo-a refém das rodovias.

Para elucidar as consequências da reforma do Porto de Mariel para a economia brasileira, avaliar seus riscos e benefícios ao desenvolvimento econômico nacional conversamos com José Carlos de Assis, doutor em economia pela UFRJ e professor de Economia Internacional na UEPB, jornalista e vencedor do Prêmio Esso de Reportagem. A seguir, o professor comenta sobre os aspectos econômicos de Mariel e a respeito da influência dos meios de comunicação na opinião pública sobre alguns dos projetos de política externa.

 

 

Segundo o olhar de um economista, quais são as principais consequências advindas do investimento brasileiro no Porto de Mariel, tanto no plano doméstico do Brasil como também em sua inserção internacional?
José Carlos de Assis: O Porto de Mariel foi um empreendimento do Governo cubano, financiado pelo BNDES e executado por uma grande empreiteira brasileira. O Governo brasileiro não comprometeu nele um único real a fundo perdido. Todo o financiamento retornará aos cofres do BNDES. Claro que houve oposição ao empreendimento, basicamente de natureza ideológica, por parte daqueles que se alinham à posição norte-americana de embargo da economia cubana. Nós não temos nada com isso. Não temos nenhuma razão para embargar Cuba. Financiamos um grande negócio que trouxe e continuará trazendo muitas vantagens para a economia brasileira não apenas no que tange a execução da obra, em si, mas em termos de fornecimento de insumos e serviços de engenharia.

 

Em vídeo divulgado pelo Plano Brasil Maior, representantes do Governo Brasileiro, como o diretor em Cuba da Apex-Brasil, Hipólito Rocha Gaspar e o embaixador brasileiro em Cuba, Cesário Melantonio Neto, acreditam no impacto positivo da modernização de Mariel para o comércio internacional do Brasil. Em que medida esse investimento é estratégico?
J.C.A.: Creio que se trata de um investimento estratégico porque Mariel representará, e na verdade já representa, um ponto de apoio ao comércio internacional do Brasil voltado tanto para o Atlântico quanto para o Pacífico. É preciso encarar esse empreendimento do ponto de vista econômico e comercial, insisto, sem viés ideológico. A esse respeito, Cuba é uma economia socialista que se está abrindo para o mercado. Manter um vínculo empresarial com ela nos abre amplas perspectivas no futuro, sempre colocando a ideologia à parte, caso Cuba venha abrir-se plenamente para o mercado.

 

Em resposta a uma declaração dada pela candidata Marina Silva, o assessor para assuntos internacionais da presidência, Marco Aurélio Garcia, negou que o Porto de Mariel reflita possíveis intenções imperialistas brasileiras. Qual é a opinião do senhor sobre isso?
J.C.A.: Acho que o apoio à modernização de Mariel, além de ser um bom negócio em si, aponta para um tipo de solidariedade continental que contribui fortemente para os projetos de integração Unasul e Mercosul. O Brasil não tem qualquer pretensão imperial; queremos, sim, a integração sul americana.

O Porto de Mariel será acompanhado de uma zona econômica especial onde será permitida a participação de capital estrangeiro. Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate .

O Porto de Mariel será acompanhado de uma zona econômica especial onde será permitida a participação de capital estrangeiro. Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate .

O senhor acredita que o financiamento brasileiro em Mariel é um precedente do que o Banco do Sul e o Banco dos BRICS poderão fazer ao voltarem-se para uma dinâmica Sul-Sul de incentivo ao desenvolvimento? O que poderíamos extrair do perfil desses agentes financeiros no sistema internacional?
J.C.A.: Certamente que o financiamento de Mariel pelo BNDES é um sinalizador para os financiamentos de longo prazo em infraestrutura por parte do Banco dos BRICS e do Banco do Sul. É fundamental que esses financiamentos passem à margem de preconceitos ideológicos e de condicionalidades políticas do tipo das impostas pelo Banco Mundial e pelo FMI, que muitas vezes violam a soberania econômica e administrativa do país que toma o empréstimo. Nesse sentido, aponta na direção de uma verdadeira revolução na arquitetura financeira internacional.

 

O senhor é um jornalista experiente e passou por tradicionais veículos. Como enxerga a cobertura que a grande mídia dá à política externa brasileira? Os meios de comunicação são capazes de influenciar tomadas de decisão?
J.C.A.: É uma cobertura deplorável, quase sempre opinativa e dominada por ideologia. A mídia brasileira, com pouquíssimas exceções, não saiu da Guerra Fria. Ela toma como verdade tudo que vem dos EUA, e considera como falso tudo o que é contra os interesses econômicos e políticos dos EUA. Se você tomar como exemplo a crise da Ucrânia ou, antes dela, a crise na Praça da Paz Celestial, em Pequim, verá que nossos comentaristas internacionais se limitam a reproduzir o noticiário americano, totalmente enviesado para os interesses dos Estados Unidos e para a propaganda da abertura econômica.

No caso dos incidentes da Praça da Paz Celestial, em Pequim, nossos comentaristas ainda insistem em referir-se a ele como “massacre da Praça da Paz Celestial”, quando a praça foi evacuada pelo Exército sem que não houvesse uma única morte de manifestante. Morreram, sim, 25 deles, em confronto com o Exército em outras partes da cidade, em situações de conflito de rua difíceis de serem controladas de cima para baixo. Sabem qual é a minha fonte? A “Foreing Affairs”, a principal revista de política externa dos EUA, insuspeita de simpatia comunista. Ela dedicou uma edição inteira aos incidentes da praça.

Em relação à crise da Ucrânia, a mesma “Foreign Affairs” demonstra que a OTAN, sob pressão americana, tem sido a grande provocadora de guerra na sua ânsia de cercar a Rússia pelo oeste, mediante a incorporação direta de países do antigo bloco soviético. Esclarece a revista, com base em documentos oficiais, que a liderança americana foi claramente advertida por Vladimir Putin de que, no caso da Ucrânia e da Geórgia, limítrofes da Rússia, uma eventual adesão à OTAN teria uma resposta imediata russa. De fato teve, mediante a incorporação da Crimeia por referendo, numa cartada estratégica genial de Putin.

O fato é que a marcha da OTAN até o quintal da Rússia é inaceitável para Putin, por razões geopolíticas, além do fato de que há milhões de russófilos no Leste da Ucrânia que estão sendo literalmente massacrados por Kiev nas barbas da Rússia. Isso equivale à ascensão de um governo hostil aos EUA no México ou no Canadá. A imprensa brasileira, como disse, é parcial ou omissa. Adotou sem qualquer cuidado a versão americana e europeia sobre a derrubada do avião civil sobre território ucraniano, atribuindo-a a rebeldes russos. Não fossem as redes sociais, não saberíamos que peritos alemães encontraram evidências de que o avião foi abatido por forças de Kiev.

 

 

Elze Rodrigues e Daniel Martins são Mestrandos em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas.

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