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GOLPE E POLÍTICA EXTERNA

‘Não creio em coincidências’, diz analista sobre interesse dos EUA na queda de Dilma

entrevista com Analúcia Danilevicz Pereira

Por Eduardo Maretti, da RBA | 05/05/2016

A tentativa de derrubar a chefe de Estado brasileiro, que evolui a passos largos, não está dissociada dos interesses norte-americanos. Não fosse isso, o pré-candidato à presidência dos EUA pelo Partido Democrata, Bernie Sanders, não teria afirmado que seu país “não pode continuar derrubando governos na América Latina”, embora não tenha citado a conspiração contra Dilma, diz Analúcia Danilevicz Pereira, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em entrevista à RBA.

“O que a gente pode inferir disso tudo? Que realmente há interesse numa mudança no governo brasileiro. O próprio PMDB já divulgou um relatório com aquilo que eles pretendem fazer, caso assumam o governo. A principal ameaça é a reforma do Estado, a privatização, mudar a política nacional e redirecioná-la àquilo que foi no passado”, diz a professora.

Para ela, as mídias sociais desempenham hoje um papel importante nas estratégias de desestabilização de nações que incomodam os Estados Unidos. “Todas as mídias sociais, seja Facebook, Twitter ou WhatsApp, são formas de intervenção”, afirma. “É uma forma muito eficiente de fragmentar uma sociedade.”

Logo após as eleições de 2014, Frederick William Engdahl, intelectual de Princeton e pesquisador de economia, geopolítica e geologia, escreveu um artigo intitulado “Presidente do Brasil é o próximo alvo de Washington”. Nele, Engdahl escreveu: “A razão pela qual Washington quer se livrar de Rousseff é clara. Como presidente, ela é uma das cinco cabeças dos Brics que assinaram a formação de um crédito de US $ 100 bilhões do Banco de Desenvolvimento“.

“É interessante observar que a mesma coisa (que se passou no Brasil) aconteceu na chamada Primavera Árabe”, também diz a professora da UFRGS.

mídias sociais

Foto: Robert Stuckert Filho/Presidência da República.

 

Leia a entrevista:

Existem indícios ou sinais de que o golpe no Brasil interessa aos Estados Unidos?
Algumas ações indicam o interesse muito claro em uma mudança de poder no Brasil. Já um tempo atrás – as pessoas acabam esquecendo –, houve denúncias que vazaram pelo Wikileaks sobre espionagem em uma das principais empresas brasileiras, que é a Petrobras, e o próprio monitoramento da presidente da República. Logo em seguida, inicia-se um processo de denúncias em torno das atividades dentro da empresa.

Os Estados Unidos estão presentes em diferentes países e das mais diferentes formas. No Brasil, seja por meio da utilização de alta tecnologia, que permite espionagem, seja por meio de figuras que de fato atuam dentro do país e tentam se aproximar do governo. Isso pode acontecer por meio de organizações não governamentais, por exemplo.  A igreja evangélica norte-americana tem um poder financeiro e de atuação internacional muito grande. Não é por acaso que a Igreja Evangélica no Brasil foi ganhando terreno político. Ou seja, são ações que não são facilmente confirmadas, concretamente, mas sabemos que existe.

O Brasil estava consolidando seu poder nacional, e acumulando condições de projeção de poder internacional. Aí ele se torna um problema para os Estados Unidos. Anunciamos, um tempo atrás, a autonomia em relação à produção de petróleo, houve a questão relacionada ao pagamento da dívida externa. Foram várias declarações de autonomia que, evidentemente, incomodam os Estados Unidos.

Então, o que a gente pode inferir disso tudo? Que realmente há interesse numa mudança no governo brasileiro. O próprio PMDB já divulgou um relatório com aquilo que eles pretendem caso assumam o governo. A principal ameaça é a reforma do Estado, a privatização, mudar a política nacional e redirecioná-la àquilo que foi no passado. As evidências existem, mas como vamos fundamentar, documentar isso? Isso faz parte de relações que começam a ocorrer de uma nova forma, mas que reproduzem velhos mecanismos de controle e monitoramento externo, evidentemente.

 

Bernie Sanders, esta semana, disse que seu país precisa parar de derrubar governos na América Latina, embora não tenha citado o Brasil…
Sim, este interesse existe. E assim se consegue capitalizar e abrir espaço para que a oposição, que estava extremamente fragilizada, consiga rapidamente um espaço de atuação. Se nós formos considerar o momento em que essas coisas acontecem, mais claramente a partir de 2013, em três anos a oposição virou o jogo no Brasil.

Claro que essas coisas foram se processando há mais tempo. Tem uma análise que a gente precisa fazer, que é a seguinte: o primeiro governo Lula foi relativamente duro no sentido de dar continuidade a políticas iniciadas pelo PSDB. Mas a segunda gestão foi social. Acho que isso fez parte de um pacto político. A partir daí se fortaleceram possibilidades importantes do Brasil se consolidar como um polo de poder na América Latina. E foi aí que as coisas começaram a se tornar um incômodo.

 

A visita do senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) a Washington (para onde viajou no dia seguinte à sessão da Câmara que aprovou a admissibilidade do processo de impedimento de Dilma Rousseff) tem a ver com tudo isso, ou é uma simples coincidência?
Não tem nenhuma coincidência. Eu não acredito em coincidências. Tudo é um grande jogo político. O próprio juiz Sérgio Moro tem instrução norte-americana. Moro estudou, teve contato muito próximo com o Departamento de Estado norte-americano.

O problema é que as coisas acabam acontecendo muito nos bastidores e a mídia divulga aquilo que interessa. Os grandes meios de comunicação não estão isentos na oferta de informação. Existe esse trânsito de políticos brasileiros nos EUA, as conversas que não vamos realmente ter como documentar. Não podemos esquecer que o Brasil tem recursos importantes e, no momento em que as empresas estatais se fortalecem, minimizam o poder de atuação de empresas estrangeiras. A gente pode observar que todo o movimento foi no sentido de quebrar todas as principais empresas nacionais, sejam elas públicas, mistas ou até privadas, mas que tinham projeção internacional. Esse movimento evidentemente está ligado aos interesses norte-americanos.

 

Frederick William Engdahl faz uma associação entre o crescimento das manifestações populares a partir de 2013 e a queda da popularidade da Dilma, que coincidiu, segundo ele, com a “desestabilização via Twitter” e a presença do vice dos Estados Unidos, Joe Biden, naquele momento no Brasil…
Os principais controles da tecnologia da informação, e não é só um controle técnico, mas também o controle da tecnologia e da forma como essa tecnologia está aplicada, isso tudo está nas mãos das empresas americanas. E isso é tão forte que, por exemplo, elas ousam obstruir qualquer medida legal dentro de um Estado. Há uma intervenção aceita, uma intervenção que consegue burlar as condições soberanas de um Estado, sem grandes conflitos.

Todas as mídias sociais, seja Facebook, Twitter ou WhatsApp, são formas de intervenção, no momento em que a tecnologia vai ser usada sem nenhum respeito às legislações nacionais. Mais uma vez: as coisas não são coincidência. Essas mídias são uma forma de estabelecer agendas políticas que mobilizam a sociedade de uma maneira geral.

É interessante observar que a mesma coisa aconteceu na chamada Primavera Árabe, quando muito se falou na importância e no papel benéfico das mídias sociais nas mobilizações. As pessoas que foram mobilizadas são as que têm acesso à internet. E a grande maioria das populações dos países em desenvolvimento não têm acesso à internet. Isso é um dado. Estamos falando de mobilizações de determinadas classes sociais que acabam representando uma vontade popular ou definindo-se como representante de uma vontade popular, e isso não é uma realidade.

 

Então a associação feita por Engdahl faz sentido?
E vou te dizer mais: hoje, (as mídias sociais) têm um papel nefasto para a definição ou pelo menos a manutenção de projetos nacionais. É uma forma muito eficiente de fragmentar uma sociedade. Criam-se agendas que vão ser seguidas por determinados grupos, e isso vai aparecer para o grande público como uma representação ampla da sociedade, e não é. Na verdade é uma falácia.

Por exemplo, manifestantes a favor do impeachment. Aí mostram aquela massa em determinada cidade como se aquilo ali representasse efetivamente uma vontade popular. E na verdade você tem ali determinados grupos muito claramente identificáveis, com um pouco de boa vontade. Isso é muito complicado, porque tem a ver com a soberania nacional, com as condições de um país de regular o acesso à internet, de regular aquilo que é interessante ou não. Toda vez que se discute isso, se discute como se a internet fosse o espaço mais democrático do mundo, e ela não é. Temos alunos fazendo pesquisa sobre isso e fica claro, no levantamento de dados, que quem controla a tecnologia e a utilização dessa tecnologia são fundamentalmente Estados Unidos, França e Inglaterra.

Os outros países, quando tentam criar suas alternativas, são taxados de ditaduras. Como a China, por exemplo, que tem todo seu regulamento para a utilização da internet. Porque se tem consciência disso, de que esse é um espaço controlado por um determinado grupo de países. Mas essa discussão não é pública. Ao contrário. A gente costuma dizer que a internet é um espaço democrático, mas ela não é. É altamente controlado por um grupo de praticamente três países.

 

Fonte: Brasil de Fato.

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