sexta, 20 de outubro de 2017

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SEGURANÇA INTERNACIONAL

“A lógica é exagerar a ameaça para implementar segurança”

Entrevista com Reginaldo Nasser

Por Helena Cunha | 15/08/2016

Uma das patrocinadoras dos jogos do Rio é a ISDS, uma empresa de segurança israelense que participa ativamente dos crimes de guerra cometidos na Palestina, ao testar seus equipamentos com a população local. Em entrevista à AMERI, Reginaldo Nasser fala sobre como a importação desse lógica de segurança atinge a vida dos brasileiros. Leia a segunda parte da conversa:

policiais

Nasser: “Com a invenção do terrorismo, isso vai ampliar e Israel já está em um patamar avançado. A lógica é você exagerar a ameaça para implementar segurança. E isso é uma lógica no mundo inteiro”. Foto: AEN.

O Rio de Janeiro já vive uma situação de extrema violência, que a gente pode verificar, por exemplo, pelo processo de guerra às drogas. Você acha que a população carioca pode sofrer ainda mais com a importação do sistema de segurança israelense?
Essas empresas já estão aqui há algum tempo. Israel quintuplicou a venda [desses sistemas] para o Brasil já durante os governos Lula e Dilma. E para o mundo inteiro, Israel se especializou nisso. Claro, nos grandes eventos isso é intensificado. O Ministro da Defesa fez uma declaração esses dias de que está dando informações para a área de inteligência da segurança institucional e também para o Ministério da Justiça para readequar os procedimentos e protocolos de defesa e segurança para casos de emergência. “Nós vamos intensificar os sistemas de controle e segurança. Teremos que aumentar o número de checkpoints, postos de controle e outras medidas”, disse o ministro.

Há um tempo atrás, um chefe de polícia dos EUA disse que “Israel é a Harvard de segurança”. E é mesmo. Israel é hoje, ao lado de Estados Unidos e Inglaterra campeão na venda desse tipo de protocolo de inteligência e serviços, que progressivamente estão sendo instaurados em espaços urbanos, em alguns lugares de forma mais intensa do que outros. Então agora deve ter muita gente feliz, dizendo “estamos iguais às grandes potências, temos até terrorismo”.

O que é a ameaça? Ameaça é algo construído. Algumas coisas podem representar uma ameaça, outras não. 59 mil pessoas assassinadas por ano não representam uma ameaça; 10 caras jurando lealdade ao Estado Islâmico, isso é uma ameaça. Milícias, tráfico combinado etc. não são ameaças.

Quando aconteceu o atentado na França disseram que “eles não gostam do modo de vida ocidental”. Há estatísticas que eu sempre gosto de lembrar: 80% das vítimas de terrorismo do mundo são islâmicas; 5 países congregam esses 80% de mortes: Iraque, Síria, Paquistão, Afeganistão e Nigéria. Daí é o modo de vida ocidental que está sendo violentado? Só na semana passada, em Cabul (80 mortos) e no Iraque (mais de 100 mortos). E quem morreu? Eu digo isso porque é interessante fazer uma análise das capas de jornal. Quando morre alguém que não é muçulmano , coloca-se a religião: “70 cristãos morreram”. Aí nessa notícia estava escrito que “80 morreram”. Isso é regra geral, se o jornal não pôs a religião, é porque é muçulmano. Eu falo sempre isso, vamos brincar de equação matemática. Tem uma mesma variável nos dois lados, você corta nos dois lados, então o problema não é ser muçulmano . Se um grupo que se diz islâmico mata outro que é islâmico, então o problema não é ser islâmico, não é? Vamos ver se no Brasil quando alguém mata, pergunta a religião. Dos 59 mil que morreram, alguém perguntou a religião dessas pessoas? Não. Os que mataram também não perguntaram.

Então quando encaixa no esquema, a notícia fica grande, quando não encaixa, não aparece. O caso da França foi manchete porque supostamente era um muçulmano , apesar de todas as evidências negarem isso. Mas a grande maioria dos mortos pelo Estado Islâmico são islâmicos. No Iraque, a grande maioria da população é muçulmana . Se você faz um atentado lá, a grande maioria obviamente dos mortos vai ser islâmica.

Veja esse caso da Alemanha. Olha só a descrição inicial: “um jovem aparece em frente ao McDonald’s, com uma pistola e começa a atirar”. Daí vem a primeira notícia: é alemão, mas é alemão iraniano. As coisas já começam a cair no esquema. Aí de repente descobrem que ele não é islâmico e que é de direita. Ah, então não é terrorista, ele tem problema mental. Quando o atentado é de extrema direita, é de alguma pessoa que tem algum problema mental, desajustado, individual. Quando é islâmico, é organizado, pensado, planejado e tem a ver com a religião. É uma construção que está na mídia internacional e que a nossa grande mídia aqui no Brasil reproduz.

Conheça a ISDS, empresa israelense que tem um contrato com o Comitê Organizador dos Jogos 2016 no Rio. Vídeo da campanha “Olimpíadas sem Apartheid”.

Pensando nessa construção do inimigo do terrorismo, você acha que há uma relação disso com o crescimento das empresas de segurança?
Tem. Até então não tinha a ver, porque [essas empresas] vinham mais para o Brasil e para os outros lugares com o argumento mesmo de segurança em geral. Por exemplo, hoje em dia Israel tem uma área de ponta em biometria e outras formas de identificação. Com isso, dá para você identificar quem você quiser. Israel, que se diz ameaçado, testou em laboratório (territórios ocupados) seus equipamentos, e eles dizem isso. Então é algo que já funciona e que eles já vendem. Com a invenção do terrorismo, isso vai ampliar e Israel já está em um patamar avançado. A lógica é você exagerar a ameaça para implementar segurança. E isso é uma lógica no mundo inteiro.

Por que a gente tem que ter esse padrão norte-americano nos cursos de RI e por que a gente já não discute a chamada segurança doméstica? Por que isso não é objeto? Vivemos uma guerra urbana e isso é matéria para as Relações Internacionais. Tem gente que diz que nós não temos guerra, mas as empresas [de segurança] já começam com esse discurso de que pode ter e de que elas podem dar uma consultoria. Essas pessoas “precisam” valorizar a área de conhecimento delas.

E a imprensa sempre exagera. Três anos atrás, uma manchete de jornal dizia: “Rebeldes do Mali são ameaça à Europa”. Na imagem que acompanhava a manchete os rebeldes estavam andando de chinelo. E era a ameaça à Inglaterra, à França, à Alemanha. Como é que pode isso? Então exageram a ameaça para criar um mecanismo de segurança muito maior.

Esses dias, em um anúncio na internet de concurso para Polícia Federal, tinha uma foto de um cara que parecia que ia enfrentar um Robocop, por causa da roupa que vestia. É impressionante! Para que uma pessoa está desse jeito? Quem ela vai enfrentar? Que inimigo é esse? Mas o país inteiro está desse jeito. Então agora viramos os Estados Unidos, França, porque aqui pode ter atentado terrorista. Por causa disso tem muita gente alegre por aí, dizendo que agora nós somos uma grande potência.

 

Helena Cunha é graduanda no Instituto de Relações Internacionais da USP e integrante da AMERI.

Leia aqui a primeira parte desta entrevista, e aqui a terceira.

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