quarta, 13 de dezembro de 2017

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ORIENTE MÉDIO

Nasser: “Se o Ocidente é o que os EUA fazem no Iraque e Afeganistão e o que Israel está fazendo, com certeza estou de algum outro lado.”

Entrevista com Reginaldo Nasser

Por Rafael Siemerink e Lys Ribeiro | 01/09/2014

Na semana passada publicamos a primeira parte da conversa entre Reginaldo Nasser, Brasil no Mundo e Oriente Press. Durante a entrevista, Nasser apontou que as relações entre Brasil e Israel não serão alteradas pelo ‘teatro diplomático’ entre as diplomacias dos países, que teve destaque nos jornais recentemente. Segundo o professor, ações bélicas, como as que o Estado de Israel produz em Gaza, só podem ser respondidas por medidas coercitivas – uso da força ou embargo econômico, não apenas por declarações contundentes. Ademais, sublinhou que a política externa brasileira está desorientada para o Oriente Médio desde o final do mandato Lula. “É uma posição que tende a aceitar o status quo, e isto não é política. Por outro lado, adotar uma posição contrária aos Estados Unidos nas questões do Oriente Médio não significa uma política autônoma”, comenta o professor. Esta falta de posicionamento influencia as posições adotadas pelos demais países da América do Sul, assim como, em alguns deles, a lógica da política externa parece seguir o que agrada – ou não desagrada – os EUA.

Reginaldo Nasser abordou também sobre o peso da construção midiática da imagem do Oriente. Nasser comentou que ‘Oriente’ e ‘Ocidente’ são, “em termos de conceitos […] muito equivocados, ao passo que enquanto mobilização político-ideológica são muito eficazes para buscar ganhar a opinião pública”. E complementa: “É recorrente esta dicotomia ‘Oriente/Ocidente’ ser reivindicada não para esclarecer, mas para confundir, tornar complexo”. Nesta segunda parte, o professor discorreu sobre a articulação da unidade Fatah/Hamas e a atuação da Autoridade Nacional Palestina. “Este tipo de assunto não é tratado explicitamente, mas o Hamas interessa ao Netanyahu na medida em que representa as oposições binárias, está cada vez mais claro.”

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O senhor acredita que esta falta de posicionamento do Estado brasileiro em relação ao Mundo Árabe leva os outros países da América do Sul também a arrefecer relações?
Não seria taxativo a ponto de concluir que leva necessariamente, mas que há uma influência, pela posição referencial do país na América do Sul, não há dúvida nenhuma. Aliás, até por esta razão se faz mais necessário ainda adotar a uma posição mais elaborada, mais equilibrada, sofisticada. Liderança é demonstrada na prática, através do comportamento. No caso de Israel, inclusive, o governo brasileiro demorou se posicionar. O Chile o fez primeiro, depois a Bolívia preferiu por uma reação mais contundente, e o Brasil hesitou. Enfim, chamou o embaixador para consultas e este voltou em um momento que a situação humanitária estava em seu pior momento com vários ataques às escolas. Isto passa a sensação de falta de firmeza porque, se o motivo era a condenação do massacre, então deveria continuar valendo.

O senhor citou a Bolívia, que considerou Israel um ‘Estado Terrorista’ e renunciou ao acordo com este sobre vistos, de 1972. Por outro lado, o Paraguai não assinou o Comunicado Especial do Mercosul sobre a Situação em Gaza. Então, o que isto nos diz das relações entre América do Sul e Oriente Médio?
Há divergências não apenas em relação ao caso específico de Israel, mas sobretudo em aspectos ideológicos de uma maneira geral.


Aqui na América Latina, a questão é se aproximar ou desagradar a posição dos EUA.

Podemos levantar a hipótese que o que impediria o Paraguai em não tomar parte desta declaração contrária a Israel seria desagradar os EUA. Essa situação é recorrente na América Latina, ocorreu da mesma forma quando os Estados Unidos procuravam autorização para atacar o Iraque pela ONU, e Chile e Brasil adotaram uma posição contrária, houve indisposição. Interpreto que o referencial é os EUA, não consigo ver outro motivo pelo qual o Paraguai estaria impedido de se declarar contrário à situação em Gaza, isto porque trata-se de uma questão de crise humanitária. Agora, quando é relacionado a Israel, o grande aliado dos EUA, acaba por ferir a suscetibilidade dos Estados Unidos. Pode haver outro elemento, não conheço a fundo a política externa paraguaia.

Mesmo motivo de não ter fechado um acordo Mercosul/Palestina ainda, por exemplo?
Mesmo motivo. Não é casual toda esta circunstância que tem passado a questão política no Paraguai, do Golpe, isto lida com regime político. Apesar de não conhecer a fundo a política do Paraguai para emitir uma opinião, acredito que a explicação seja neste caminho, do receio de desagradar os Estados Unidos ou o ‘Ocidente’, seja lá o que esta expressão queira dizer. Esta é uma questão ideológica muito forte, interessante que tenha diminuído bastante no Brasil neste momento, mas no caso do Irã, por exemplo, os críticos internos à ação do Lula, diplomatas como Rubens Barbosa e Celso Lafer, faziam bastante alusão a esta questão de estarmos ‘afastados do Ocidente’. Como se o Ocidente estivesse relacionado ao Iluminismo e o Oriente ao Obscurantismo. Primeiro, Ocidente é uma criação muito vaga e difusa, na qual cabe tudo. Se Ocidente é o que os EUA fazem no Iraque e Afeganistão e o que Israel está fazendo, com certeza estou de algum outro lado. Há, no ‘Ocidente’, muitos defensores das ações de Estados Unidos e Israel, mas igualmente muitos que não concordam. Da mesma maneira, há esta divergência no ‘Oriente’, não são blocos homogêneos. Um país árabe como o Egito, por exemplo, apoia Israel. Então, em termos de conceitos são muito equivocados ao passo que enquanto mobilização político-ideológica são muito eficazes para buscar ganhar a opinião pública.

O Brasil, neste entendimento, reproduz aquilo que o Edward Said chamava de ‘Orientalismo’?
Estas aplicações na política internacional não se fazem de maneira automática, é necessário observar o comportamento dos atores, no qual as questões ganham concretude. A tradição geral brasileira, por exemplo, é respeitar e fazer respeitar o Direito Internacional e os Organismos Internacionais e, neste aspecto, não há nenhuma novidade. Embora, repetindo, não abrange a política internacional como um todo, senão que uma parte dela. Isto não se restringe ao Brasil. A outra parte da política internacional é a cooperação militar, a venda de armas, o comércio, a economia, e assim por diante, que são processos tangíveis e existem em qualquer lugar do mundo, independente da cultura. Da mesma forma em que há exploração econômica e ideologias para cobri-la no Ocidente, há no Oriente.


É recorrente esta dicotomia ‘Oriente/Ocidente’ ser reivindicada não para esclarecer, mas para confundir, tornar complexo

Mas qual Oriente? Há uma elite árabe ‘ocidentalizada’, que frequenta Champs-Élysées, Paris e investe em Wall Street. Neste sentido, as ideias se confundem. A rua árabe tem uma situação socioeconômica que não é apenas do Oriente, mas do Ocidente também, aliás das grandes cidades , e são essas as identificações, de cotidiano das pessoas em diversos locais do globo. Então, eu prefiro olhar os cortes mais transversais do que estes blocos. Em Paris e Londres, por exemplo, ocorreram amplas mobilizações em torno dos palestinos, claro, que estão mais próximos da realidade do Magreb – Argélia, Tunísia, mas as identificações dizem respeito principalmente das condições das pessoas da periferia de Paris, e o que é mais interessante, são descendentes de árabes, mas nasceram na França. Assim, é preciso compreender as identidades para além das questões exclusivamente culturais, incorporando as variáveis socioeconômicas.

Lógico, existe o orientalismo, mas a internacionalização permitiu a constituição de espaços políticos, sociais e econômicos semelhantes no mundo inteiro. A Revolta Árabe ocorreu nas cidades, não nos países. As cidades no Egito ou Líbia – onde 85% da população é urbana – são semelhantes e, portanto, possuem alguns problemas e desafios comuns às cidades do Brasil ou Estados Unidos. No Cairo há 18 milhões de habitantes, maior que São Paulo. A dinâmica sociopolítica das cidades em qualquer lugar do mundo se tornou semelhante. São Paulo, uma grande cidade no Brasil, tem mais semelhança com algumas cidades do Oriente Médio do que em relação às cidades do interior do Brasil. Devido a este fato, recuso a empregar o termo ‘revolta nacional’, não é nacional, não é o Egito ou Líbia inteiros. Já na Síria, o processo ocorreu de maneira um pouco diferente, porque começou no meio rural para depois abarcar as cidades. O principal fator explicativo é a Síria ser, em comparação aos outros países do Oriente Médio, muito mais rural, o que confere também um aspecto de grupos sociais, de rachar o país. Em suma, as explicações sociológicas e políticas são válidas tanto aqui quanto para o Oriente Médio. Esta separação constitui uma ideologia muito forte, como se no Oriente Médio não houvesse os mesmos problemas encontrados no ‘Ocidente’. As Revoltas Árabes vieram justamente dizer o contrário. As pessoas lá estão igualmente preocupadas em viver bem. Existe um percentual altíssimo de jovens com alto grau de educação, então a demanda é maior.

Agora, cria-se a imagem do que é o Oriente em torno da religião e do terrorismo. Mesmo aquele que critica o ‘Ocidente’ e reivindica o orientalismo reproduz os estereótipos, embora até não seja a intenção, e isto serve para retirar a questão dos atores inseridos em seu contexto social. Fala-se em ‘Ocidente’, ‘Comunidade Internacional’ e ‘ONU’, o que torna as questões vagas e difusas. Melhor nomear: Estados Unidos, França Brasil, etc. Então, há um conjunto de palavras que querem passar certas ideias, despersonalizam e impedem a observação do movimento real dos atores. É preciso ficar claro quem são os atores, o que eles fazem, quais são as relações comerciais e militares que são as relações concretas, de interesse etc., questões normais em qualquer lugar do mundo. É recorrente que esta dicotomia ‘Oriente/Ocidente’ seja reivindicada não para esclarecer, mas para confundir, tornar complexo e, portanto, de difícil compreensão . O Oriente Médio é tão complexo quanto a América Latina ou África. No âmbito da religião utiliza-se bastante o termo ‘O Islã’. Islã não é ator, assim como o Catolicismo também não o é. Sim, existem grupos terroristas que se dizem islâmicos, assim como existe a Ku Klux Klan, um grupo terrorista que se diz cristão. A questão das mulheres é outro exemplo. Obviamente há problemas em relação ao tema no Oriente Médio, e particularmente devemos lutar contra todas as formas de repressão às mulheres, mas passa a impressão de que no ‘Ocidente’ não existe violência contra a mulher, quando na verdade é o lugar onde há a maior taxa de tráfico de mulheres e crianças para a exploração sexual.

Palestinos procuram casas destruídas por ataques israelenses em escombros no norte da Faixa de Gaza. Foto: Shareef Sarhan/ UN

Palestinos procuram casas destruídas por ataques israelenses em escombros no norte da Faixa de Gaza. Foto: Shareef Sarhan/ UN

Então, o ponto de partida adotado por vezes prejudica o restante do raciocínio porque, ao comparar, são estabelecidos critérios de julgamento, estereótipos são construídos e são feitas leituras apressadas, sem considerar um raciocínio histórico do processo. É necessário localizar melhor, comparar com cuidado e estabelecer semelhanças. Exemplos abundam. A Questão Palestina assemelha-se mais às lutas do ETA e IRA, que remetem a ocupação de território, do que a um conflito religioso. Os ‘Túneis da Morte’ aos quais a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo fizeram alusão, também se encaixam no exemplo porque túneis não matam, e, ademais sempre foram utilizados dentre as táticas daqueles situados em conflitos assimétricos, como no Vietnã e Argélia. No se que se refere ao tema da violência atribuem, igualmente, ao Oriente Médio uma característica de selvajaria, quando em dez anos no Brasil morreram mais pessoas devido à ação armada se comparado ao Iraque, Afeganistão, Sudão e Palestina somados. Os conflitos na Faixa de Gaza são remetidos automaticamente ao Hamas, um grupo criado em 1987. Então antes de 1987 não havia conflito? Assim, são questões que precisam ser pontuadas antes de recair neste exotismo do ‘Orientalismo’, muito bem trabalhado pelo Said. Estas leituras são transpostas para uma explicação da política e, mais do que isso, induzem as pessoas a tomar posicionamento, o que é grave. E antes de ver a questão política propriamente dita, que afinal diz respeito a todos por ser uma crise humanitária, na qual 30 % dos mortos são crianças. As agências dominam o sistema de informação mundial, os jornais reproduzem, e estas imagens são sistematicamente difundidas por todo o mundo. Publicações nos jornais dizem ‘Hamas manda foguete, Israel responde’, mas não há nenhuma vez que é o contrário? Todas as vezes o ‘Hamas ataca e Israel responde’? portanto o Estado de Israel não ataca, apenas se defende.

Entre os destaques dos jornais, também houve ‘Hamas refuta acordo de paz’ …
E, na verdade o Hamas realmente refutou, ainda que não fosse um acordo de paz. Notando o que foi solicitado neste acordo, na realidade o Hamas agiu em conformidade com as demandas da população. Abarca retirar o limite do mar devido à pesca, retirar igualmente o cerco, ou seja, solicitações razoáveis e, aliás, internamente para o Hamas é ótimo, porque parece uma demanda do grupo.

O mapa deste conflito é assustador, por volta de 44% de Gaza está no controle de Israel, que é a considerada Zona de Segurança. Por consequência, o argumento será invertido, o discurso no futuro deverá defender os motivos pelos quais o Estado de Israel terá que desocupar a área. A administração destes territórios também gera um contexto de violência. Há, por exemplo, um controle do tipo de alimento e quantidade de calorias que o indivíduo pode ingerir em Gaza. Houve, da mesma maneira, uma diminuição de quantidade e tipo de pesca porque o alto mar é restrito para os palestinos. Então, parecem detalhes para quem está de fora, mas para o cotidiano dos palestinos é importantíssimo.

Portanto, não é questão de apenas discutir o cessar-fogo, há muito mais pontos objetivos a considerar: as condições sociais e econômicas do povo palestino. Outras discussões são menos importantes, como quem estava ali pela primeira vez na historia . São recursos de argumentação que só servem para desviar do tema principal: a criação de um verdadeiro Estado Palestino.

E esta reivindicação de ‘estar ali primeiro’ é um discurso muito utilizado pela ideologia sionista…
Sim, e agora os sionistas estão muito bravos com uma corrente de ortodoxos judeus antissionistas, que considera a criação do


Sobre a unidade articulada em abril, interpreto que ambos Fatah e Hamas estão enfraquecidos aos olhos dos palestinos na questão da legitimidade

Estado de Israel como o início dos problemas e o sionismo como a negação do judaísmo. É um discurso muito bem articulado, defende que o Estado de Israel desrespeita os dois principais mandamentos: ‘não roubar, e não matar’. Esta corrente de judeus ortodoxos expõe justamente a fragilidade do argumento de que criticar o Estado de Israel e ser antissemita são posturas equivalentes. Entretanto, o antissemitismo existe, e muito na Europa. Ele começa a se manifestar porque se serve de um argumento ‘legítimo’ da matança de palestinos. Então, há um crescimento deste movimento na Inglaterra, Alemanha e França, e é ruim porque confunde as lutas. Na Inglaterra há alguns movimentos contra Israel e a favor dos palestinos que já declara ‘abaixo o antissemitismo’. Acredito que é uma guerra de palavras, mas são palavras que têm significado e induzem a pensar e agir de uma determinada forma. Por isso há sempre que ter cuidado. Particularmente, sempre falo ‘Estado de Israel’ ou ‘Governo de Israel’.

Qual foi a posição da Autoridade Nacional Palestina na Cisjordânia em relação ao bombardeio de Gaza? Muitos palestinos reclamam que a Autoridade Palestina teve uma atitude tímida e não criou uma forma de bater de frente com Israel …
Eu sou muito crítico à Autoridade Palestina, mas acredito que neste caso agiu de forma moderada e com razoabilidade. Condenou o Estado de Israel e alguns membros da Autoridade Palestina. Inclusive, avaliaram que não restava ao Hamas outra alternativa senão defender o território. Acredito e entendo que moderação foi utilizada também para não disseminar conflito pela região. Porque justamente seria do interesse do Estado de Israel levar o conflito para a Cisjordânia, complicaria bastante a situação.
Sobre a unidade articulada em abril, interpreto que ambos Fatah e Hamas estão enfraquecidos aos olhos dos palestinos na questão da legitimidade. Uma pesquisa de opinião pública realizada em abril desse ano apontava que os dois grupos perderiam para o Marwan Barghouthi, preso em Israel. Então, os dois estavam em crise, por isso trabalharam pela unidade, não há outra explicação e claro, falando em termos administrativos, o Hamas é hoje o que era o Fatah no que toca à sua administração na Faixa de Gaza.

Agora, após os conflitos o Hamas cresceu politicamente e aumentou a aceitação diante dos palestinos ao defender o território, como já aconteceu com o Hezbollah no Líbano. Eu particularmente acredito que o Hamas deveria ser removido da administração em Gaza, mas como se tira um grupo que chegou ao poder pelo voto? Pelo voto, é claro. Este argumento de Israel é completamente descabido, porque, se era para afastar o Hamas, era só esperar as eleições deste ano. Ademais, se é o argumento do Estado de Israel a preferência por algum grupo com o qual negociações são possíveis, o Hamas estava sendo diluído na Autoridade Palestina, de vinte ministérios apenas cinco seriam do Hamas nesta unidade. Então, qual é o problema?

O Hamas seria instrumentalizado também na Autoridade Palestina?
Sim, ela iria preponderar, mas o Estado de Israel e Estados Unidos ficaram contra. Este tipo de assunto não é tratado explicitamente, mas o Hamas interessa ao Netanyahu na medida em que representa as oposições binárias, está cada vez mais claro. Neste momento, acredito que a Autoridade Palestina adotou uma atitude equilibrada ao apoiar o Hamas e o povo palestino, ao passo que coibiu as reações e não permitiu o confronto, porque poderia piorar ainda mais a situação, e o Estado de Israel tem capacidade militar para levar adiante esse tipo de guerra.

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