quarta, 28 de junho de 2017

Brasil no Mundo

Contribuições para a Política Externa Brasileira

receba a newsletter

busca no site

ORIENTE MÉDIO

“No Oriente Médio há o encontro das três religiões, sim, mas é antes de tudo um encontro das potências”

Entrevista com Reginaldo Nasser

Por Lys Ribeiro e Rafael Siemerink | 16/09/2014

Na sessão anterior desta SUPER entrevista sobre Brasil, América do Sul e Oriente Médio, o professor Reginaldo Nasser abordou a falta de posicionamento da política externa brasileira nas questões do Mundo Árabe, argumentando ser necessária uma atitude mais elaborada e equilibrada, e exemplificou aludindo à hesitação em agir diante do massacre em Gaza, quando alguns governos da América do Sul já o haviam feito. O professor e pesquisador alertou, ademais, para o peso que os Estados Unidos ainda exercem sobre as formulações em política externa dos países latino-americanos. Segundo Nasser, “Aqui na América Latina, a questão é se aproximar ou desagradar a posição dos EUA”. Além disso, também refutou a separação ‘Oriente/Ocidente’, explicando que esta possui um apelo ideológico muito forte de reprodução de estereótipos, e seja pouco útil para explicar os processos histórico-políticos de um mundo globalizado, no qual o cotidiano das pessoas em vários locais do mundo se assemelha de maneira contundente. Por fim, Nasser comentou a respeito do conflito Israel-Palestina e a situação de crise humanitária vivida pela última, a fragilidade da união entre Hamas e Fatah e a lógica binária que permeia a Questão Palestina.

Neste terceiro e último bloco, Nasser conversa sobre o legado da Primeira Guerra Mundial para os países árabes e a característica evidentemente internacional da região. De acordo com o pesquisador, “a região nasce e continua internacional, ou seja, a influência das potências na política interna de todos os países é muito grande”. Ademais, explora a disputa entre nacionalismo árabe e islã político observada na maioria dos países árabes e os papeis de Egito, Turquia, Rússia e Irã. Também aponta para o lugar da religião nas análises políticas, assegurando que este é mais motivacional e menos explicativo e, ainda, a utilização do Oriente Médio como estratégia de segurança nacional dos EUA, formulada, na verdade por grupos, elites e lobbies que conduzem os negócios e a política naquele país.

Leia mais

 

Este ano são 100 anos da Primeira Guerra Mundial, que gerou consequências bem importantes para a região. Quais consequências o senhor acredita que ainda não foram superadas desde então?

A disputa pela população trava-se entre o nacionalismo árabe e o islã enquanto grupo político, ambos nascidos no Egito e expandidos pela região

Isto é fundamental. Para discutir a Questão Palestina o ponto de partida é a Primeira Guerra Mundial, cujo final desintegrou o Império Otomano, que dominava toda a região, e passou gradativamente para o que a Liga das Nações chamava de ‘Mandatos’, sob o domínio das potências europeias. A partir dali, a administração do território da Palestina foi conduzida pela Grã-Bretanha, sofrendo durante esses anos a ação principalmente de grupos sionistas, que perpetuavam ações terroristas ao mesmo tempo em que procediam a compra de terras na Palestina junto ao Estado da Grã-Bretanha. Na saída do Império Britânico, a possibilidade de haver um Estado de Israel já era colocada e, ainda hoje, há pontos não muito bem esclarecidos sobre como se passou de uma posição a outra. De qualquer maneira, acaba sendo o Império Britânico o maior responsável. O Estado de Israel foi criado porque teve o apoio das grandes potências, ainda que o Holocausto da Segunda Guerra Mundial tenha sido um fator importante, o processo de criação do Estado já vinha ocorrendo anteriormente. O fato é este: Israel é um Estado que nasceu dentro de uma Organização Internacional, com o apoio de grandes potências e permanece com o poder de decidir sobre quando e como quer fazer a guerra e a paz devido a este apoio permanente.

Bom, também do pós-Primeira Guerra Mundial interessante notar é que ingleses e franceses, como já haviam feito durante muito tempo na África, utilizaram-se de possíveis antagonismos entre judeus e árabes para dividir e se colocarem enquanto mandantes. Muitos documentos diplomáticos mostram isto de forma muito clara. Sem dúvida nenhuma foi nestas condições também a criação do Estado do Iraque, por Churchill, primeiro-ministro inglês. Ademais, anteriormente vinculado à Síria, até os dias atuais há pretensões e influência da Síria no Líbano. Há ainda doutrinas que permanecem ativas e apostam, por exemplo, na divisão do Líbano entre Síria e Israel, e a guerra civil no Líbano na década de 1980 foi reflexo disso.

Estas questões de processo histórico são fundamentais e, no caso do Oriente Médio, por mais que se fale de história, na verdade falam de uma história exótica, e não desta. A região é de impérios, razão pela qual os acontecimentos lá rapidamente se internacionalizam. A região nasceu e continua sob influência permanente das potências internacionais, que influenciam diretamente na política interna de todos os países. Claro, há o encontro das três religiões, sim, mas é antes de tudo um encontro das potências: Inglaterra, EUA obviamente, Turquia, um país otomano muito mais bem visto pelos palestinos, hoje dia, do que o Egito – país árabe – se esforça para ganhar influência. E dizem que as fronteiras no Oriente Médio são porosas, mas o raciocínio é inverso, porque o Estado Nacional é a artificial. Interessante a crítica que se faz à proposta de Califado, como algo exótico. Na verdade o que foi sempre estranho ali é o Estado Nacional. Desta maneira, se estas dimensões não forem estudadas, realmente é difícil entender a composição no Oriente Médio, porque depende das grandes potências. O que acontece na Síria, Líbano, Iraque, Palestina e Egito de alguma forma está ligado aos EUA, Inglaterra, França e Rússia, é um jogo de grandes potências. Igualmente envolve as potências regionais, muitas vezes conflitantes: Irã, Turquia, Catar, Arábia Saudita…

 

Atualmente há uma Guerra Fria no Oriente Médio?

Não, eu diria que no Oriente Médio há um elemento característico da Guerra Fria, as ‘Proxy Wars’ ou guerras patrocinadas. Quando não é apenas um país que as apoia, mas uma grande potência, e o conflito toma grandes proporções, caso dos Estados Unidos e Rússia, que agem na Síria e Ucrânia. Atualmente ninguém está do lado da Palestina, porque do contrário isto nunca aconteceria. Na Guerra de 1973, o Estado de Israel estava a caminho de ocupar Damasco, apenas não aconteceu devido a um telefonema de Brejnev para o Nixon, típico das guerras patrocinadas pelas grandes ou médias potências.

Ao que tudo indica, embora não de uma forma muito forte, o único aliado de governo que parece estar bem fechado com os palestinos é o Catar, mesmo que não se tenha indícios de envolvimento com o Hamas. Houve, ademais, um retraimento do Irã em relação ao Hamas, alguns interpretam que devido ao acordo nuclear com os EUA e grandes potências. A Síria, que sempre também apoiava o Hamas, não está em condições de fornecer auxílio. Então, na Faixa de Gaza, o Hamas ficou isolado.

Assim, há sempre influência de outros países na região e, portanto, o pós-Primeira Guerra é importantíssimo se o processo histórico do Oriente Médio, e não da Europa, é tomado como variável. Neste sentido, pode-se dizer que bem mais importante se comparado ao pós-Segunda Guerra: para conhecer a questão política do Oriente Médio, o pós-IGM é o marco. A divisão de áreas de influência se deu no Acordo Sykes-Picot, e depois alega-se erroneamente às etnias e religiões a causa principal dos problemas. Estas obviamente acabam por ser sistematicamente utilizadas. Muito elucidativa é a explicação para o caso do Iraque: volta e meia se interpreta as revoltas contra o governo que é xiita, como se fosse exclusividade dos sunitas. Mas em Najaf, uma cidade com 80% da população de xiitas, levantou-se em armas contra o governo. E então? A explicação baseada na etnia e/ou religião acaba sendo utilizada quando convém, senão é omitida.

Entendo que para se compreender devidamente a Primavera Árabe, devemos adotar como ponto de partida o processo que inicia no pós-IGM. Esses territórios passaram do processo colonial otomano para os europeus, em alguns lugares italiano, como a Líbia, e francês, principalmente na Tunísia e Argélia. Depois, as independências por monarquias, que posteriormente permaneceram ou deram lugar ao militarismo. Não é por coincidência que na Líbia, Egito, Síria e Iraque o militarismo e a ideia nacional chegaram concomitante às independências. A disputa pela população travou-se entre o nacionalismo árabe e o islã enquanto grupo político, ambos nascidos no Egito e expandidos pela região. Disputavam as escolas, o sistema educacional, as alianças, a concepção de mundo, e assim por diante, conforme o conceito de hegemonia de Gramsci que nos ajuda a compreender. No Egito, esta disputa ganha novo fôlego com a eleição da Irmandade Muçulmana e posterior deposição perpetuada pelos militares e apoiada pelos Estados Unidos e Estado de Israel. Assim, as identidades são construídas pensando e justificando alianças políticas, e o Egito é o foco disto, ou seja, o que ocorre no país influencia todo o restante da região até hoje.

Genebra- Suíça- O Conselho de Direitos Humanos iniciou uma sessão especial sobre a situação dos direitos humanos nos Territórios Palestinos Ocupados, incluindo Jerusalém Oriental e discutir a operação militar israelense em curso em Gaza. Walid M. Abdelnasser, Representante Permanente da República Árabe do Egipto para o Escritório das Nações Unidas em Genebra (UNOG), aborda o Conselho. Foto: Violaine Martin/ UN.

Genebra- Suíça- O Conselho de Direitos Humanos iniciou uma sessão especial sobre a situação dos direitos humanos nos Territórios Palestinos Ocupados, incluindo Jerusalém Oriental e discutir a operação militar israelense em curso em Gaza. Walid M. Abdelnasser, Representante Permanente da República Árabe do Egipto para o Escritório das Nações Unidas em Genebra (UNOG), aborda o Conselho. Foto: Violaine Martin/ UN.

À época do colonialismo, tanto o islamismo político quanto o nacionalismo árabe lutavam em conjunto contra o poder exterior. Logradas as independências, passaram a entrar em uma disputa que permanece até os dias atuais. A influência desta disputa na Palestina é incontestável. Provavelmente, se a Irmandade Muçulmana estivesse à frente do Egito, abriria as fronteiras em Gaza. Isto explica, por sua vez, porque o Golpe Militar foi fortemente apoiado por EUA e Israel. Agora, o Egito está patrocinando um acordo de paz como se fosse um país neutro, mas está altamente comprometido com os EUA e o Estado de Israel – ambos esforçando-se para que o Egito tenha autoridade na mediação. Mesmo tendo tido fracasso no primeiro acordo, não admitem que a Turquia tome parte e confira um equilíbrio nas mediações, embora o país tenha muito mais estatura militar, política e econômica.

 

Turquia, Rússia e Irã balanceiam o papel dos EUA no Oriente Médio?

Depende de qual região do Oriente Médio, não existe Oriente Médio em geral. Então, Rússia mantém um ponto de prioridade, em primeiríssimo lugar, na Síria, inclusive é o único lugar do mundo pós-União Soviética onde, exceto o Leste Europeu, a Rússia age. Ademais, em menor escala, influencia o Irã, bloqueando ações contra aquele na ONU ou em outros fóruns multilaterais. Entretanto, quando o assunto envolve Palestina, Líbano, etc., nem se manifesta.

A influência da Turquia no Oriente Médio vem crescendo já há algum tempo, na medida em que as relações com a Europa arrefecem. Quando das revoltas iniciais contra o Mubarak no Egito, por exemplo, a Turquia foi um dos primeiros países a apoiá-las. Durante as revoltas, a influência no mundo árabe diminuiu temporariamente, mas vem sendo retomada. O Erdogan já vinha tomando medidas muito assertivas e, inclusive, a Turquia apareceu como mediadora entre Síria e Israel em 2009/2010.

Do outro lado, além de Israel, o grande aliado dos EUA é a Arábia Saudita, o maior contraponto ao Irã. Então, as revoltas árabes ensaiaram algo no Golfo Pérsico, principalmente no Bahrein e Arábia Saudita, mas refluíram. O abalo sísmico das revoltas árabes ocorrerá quando os países do Golfo forem atingidos, por serem países de maior estabilidade e onde o petróleo está concentrado. O Iraque, que era uma grande referência na região, está em situação complicada. De 2001 para cá, cresceu a influência de Irã e Turquia, enquanto a Arábia Saudita manteve a importância tradicional e a do Egito diminuiu neste período de reconstrução.

No norte da África, a Líbia está também em Guerra Civil, mas é uma referência muito importante porque possui reservas de petróleo e uma situação bastante próxima à Europa. Entretanto, o foco mais importante em estratégia e segurança nacional dos Estados Unidos é o Golfo Pérsico, considerado o ‘Grande Golfo’, que abrange Irã e Iraque. Ali estão todos os destroyers americanos e, não por acaso, também onde surgiram figuras como o Bin Laden e as organizações mais radicais, ou seja, da Arábia Saudita, Iêmen, lugares que comportam aliados dos EUA.

 

O fundamentalismo islâmico seria uma reação a este avanço das potências?

Eu não utilizo ‘fundamentalismo islâmico’,  que é uma referência abstrata, pode servir para tudo. Prefiro olhar para atores e menos para os rótulos que carregam. Estas organizações mais radicais olhavam justamente a corrupção dos governos sob os quais se encontravam, não contra os EUA por princípio, mas porque os EUA mantêm estes governos. Atualmente, existem outros processos, mas na época, o discurso girava em torno do alinhamento dos EUA com estas monarquias. Neste sentido, ao atacar os EUA derrubariam estes governos contra os quais lutavam. Durante a Guerra do Golfo, por exemplo, está documentado que o Osama Bin Laden e seu grupo entraram em contato com os

Há um pensador neoconservador americano que deixou claro em 1994/95 que os EUA precisariam de um inimigo concreto, daí a eleição do islã.

EUA após a invasão do Kuwait pelo Saddam Hussein, para solicitar armas e expulsá-lo. Afinal de contas, diziam ‘fomos ótimos parceiros no Afeganistão’. Saddam seria o maior inimigo da Al-Qaeda devido à disputa com o nacionalismo. Apenas quando os EUA romperam a aliança e atacaram o Iraque, a Al-Qaeda declarara-os como inimigos. Desta maneira, se o ‘fundamentalismo islâmico’ era antes aliado dos EUA, então não era fundamentalismo islâmico, pois tudo o que diz respeito à religião fazia parte de um princípio humanista que se contrapunha ao ateísmo comunista . Se as mudanças ocorrem ao sabor das circunstâncias, então o fator explicativo é a política, não a religião.

 

A religião seria uma força motriz…

De motivação, claro. O terrorismo islâmico utiliza a ‘ameaça ocidental ao islã’ para lograr uma reação emotiva, é neste sentido que a guerra incorpora elementos da religião. Assim como vários documentos mostram que quem fortaleceu o Hamas foi o Estado de Israel. O movimento palestino veio da esquerda. Quando houve o movimento de expulsão dos soviéticos, o argumento utilizado não era o radicalismo, o islã era o bom senso, religião se relacionava com liberdade , contra o materialismo… Agora, o islã é sinônimo de radicalismo.

 

Substituiu-se então a ameaça vermelha pela ameaça verde…

Isso. Há um pensador neoconservador americano que deixou claro em 1994/95 que os EUA precisariam de um inimigo concreto, daí a eleição do islã. Não é casual que o Oriente Médio é o único lugar onde os EUA se envolvem em conflitos após a Guerra Fria, não há este tipo de envolvimento na África ou na América Latina, por exemplo. Samuel Huntington, conhecido pela teoria do Choque de Civilizações, em certo momento de seu aclamado livro, diz que o grande problema dos países no Oriente Médio é que eles sempre foram objeto da história e agora querem ser sujeitos Sim, é verdade perfeito, mas a retórica que o próprio autor construiu foi de que o islamismo é a maior fonte de conflitos no mundo.

 

Na gestão Obama, o drone é a carta na manga?

Não, o drone é uma pequena manifestação de que não é mais possível considerar possíveis diferenças entre as estratégias  democrata e republicana, pois as questões econômicas e militares dos EUA são conduzidas por elites e lobbies. Obama, um democrata, entrou no governo criticando as guerras dos EUA, mas manteve o Secretário de Defesa do Bush, isto é inédito e bastante simbólico. Manter o Gates foi um claro sinal de que há grupos muito poderosos no pentágono e lá permanecem independentemente de quem venha assumir a presidência .

registrado em:

VEJA TAMBÉM