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ORIENTE MÉDIO

“O Acordo G5+1 não só garante o desenvolvimento da energia nuclear ao Irã, mas também o seu status de poder nuclear”

entrevista com Cristina Pecequilo

Por Lys Ribeiro | 17/01/2014

Pecequilo é Doutora em Ciência Política pela USP e Professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Campus Osasco e Bolsista de Produtividade Nível 2 do CNPq.

Pecequilo é Doutora em Ciência Política pela USP e Professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Campus Osasco e Bolsista de Produtividade Nível 2 do CNPq.

Na próxima semana (20/01) entrará em vigor o acordo temporário alcançado em novembro último entre Irã e o G5+1. Baseado no controle internacional do programa nuclear iraniano para assegurar seus fins pacíficos e intermediado pelas inspeções a cargo da AIEA, o acordo tem como contrapartida o alívio parcial de sanções econômicas impostas ao país. Nesta conjuntura, há uma série de debates envolvendo desde a estabilização política do Oriente Médio, passando pela possível reestruturação de alianças político-militares que abarcam a região e o norte da África e comparações entre este acordo e a proposta base Brasil/Irã/Turquia de 2010, até análises quanto às tendências desta reorientação da política externa iraniana chefiada por Rohani e seu ministro das Relações Exteriores, Mohammed Javad Zarif. Sobre o acordo e suas possíveis implicações, o Blog Brasil no Mundo entrevistou a professora de Relações Internacionais UNIFESP, Pesquisadora CNPq, NERINT/UFRGS, UNIFESP/UFABC, UnB e membro do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI), Cristina Soreanu Pecequilo.

O impasse nuclear do Irã completa uma década e levanta questões que ultrapassam a retórica da segurança internacional repetida constantemente por alguns dos integrantes do G5+1, como nos explica Pecequilo. A autora, que analisou de maneira ampla o papel dos Estados Unidos nas relações internacionais e na política global no seu livro “Os Estados Unidos e o Século XXI” (Ed. Elsevier, 2013), afirma que o acordo é vantajoso tanto para os EUA quanto para o Irã. Em relação ao primeiro porque “reafirma a influência regional norte-americana” ao garantir um “interlocutor viável para administrar as tensões em andamento no Oriente Médio”. Já quanto ao próprio Irã, o acordo temporário “permite o reconhecimento do seu poder como potência nuclear, e a sua reafirmação diante destes outros Estados locais” que fazem parte da dinâmica regional.

A pesquisadora faz, ainda, uma rica comparação entre este acordo e seu antecessor de 2010. Segundo Pecequilo, “(…) A questão não reside, na verdade, no peso ou não das sanções econômicas no triênio 2010-2013, e que teriam levado à mudança, mas sim no caráter e contexto político que embasam os dois acordos”. Desta forma, o acordo Brasil-Irã-Turquia propunha mais que uma solução viável para a crise nuclear iraniana, ele traduzia na realidade “a necessidade de dar maior peso e legitimidade às nações emergentes do Terceiro Mundo como países relevantes na condução das grandes questões internacionais”.

 

 Há uma ideia de que o Irã é o ponto chave na pacificação do Oriente Médio. Nesse sentido, o acordo temporário entre Irã e o Grupo 5+1, que será implementado a partir da semana que vem, constitui, de fato, um avanço na estabilização política da região (quando o próprio Estado de Israel é considerado pela AIEA um detentor de armas nucleares)?

Cristina Pecequilo – O acordo com o Irã é chave para a estabilização regional, por sua posição geopolítica e relevância geoeconômica, vis a vis os países árabes e também Israel, e tem potencial de mediação e influência nos conflitos do Afeganistão e Iraque. A desestabilização iraniana por forças ligadas à Al-Qaeda ou mesmo um colapso econômico do país não interessam aos norte-americanos, visto que poderia agravar ainda mais o quadro de fragmentação e instabilidade locais. Além disso, um acordo nuclear com o Irã reafirma a influência regional norte-americana frente a estes outros aliados, incluindo Israel e funciona como um elemento de contenção (não se podendo esquecer da instabilidade gerada pela Primavera Árabe e seus atuais efeitos em nações como o Egito). Para o Irã, o acordo é instrumental igualmente, pois permite o reconhecimento do seu poder como potência nuclear, e a sua reafirmação diante destes outros Estados locais, não se podendo esquecer de um componente interno bastante forte: o da estabilidade político-econômica, que pode reforçar a influência de moderados e reformistas mais uma vez.

 

 A respeito do sistema de alianças no Oriente Médio e norte da África, você acredita que haverá uma reestruturação a partir deste acordo, configurando quebra na articulação Irã, Iraque, Síria e Líbano? Por quê?

Cristina Pecequilo – Haverá uma reestruturação no caso de que o acordo possa reforçar o papel do Irã como pivô regional e retomar sua influência política e econômica. A ideia norte-americana é eliminar um fator de risco ao se aproximar do Irã, mas, ao mesmo tempo, tentar encontrar um interlocutor viável para administrar as tensões em andamento no Oriente Médio, em contraposição às dificuldades que tem encontrado em suas parcerias com a Arábia Saudita e Israel. Porém, não há clareza de como estas alianças poderão se reproduzir, dada a elevada incerteza dos cenários sírio e iraquiano principalmente, que se encontram imersos em guerras civis. As soluções devem vir destas novas articulações estatais intrarregionais, e com os norte-americanos, mas dependerão de mecanismos multilaterais e de negociação mais amplos, que envolvam potências como a Rússia e as próprias Nações Unidas.

 

O acordo G5+1 está alicerçado na garantia de desenvolvimento de energia nuclear para fins pacíficos no Irã, exatamente a proposta base do acordo Brasil-Turquia de 2010. Por que, então, apenas firmado após três anos e meio de sanções econômicas?

Cristina Pecequilo – O Acordo G5+1 não só garante o desenvolvimento da energia nuclear para fins pacíficos ao Irã, mas também o seu status de poder nuclear. De certa forma, comparando com o acordo de 2010, que ainda previa a troca de combustível nuclear por urânio enriquecido, o acordo de 2013 é mais modesto. Em 2010, a Casa Branca, que havia apoiado as negociações trilaterais Brasil-Irã-Turquia, havia validado o acordo tripartite e depois voltou atrás, devido a pressões de grupos internos conservadores ligados ao complexo industrial militar e ao lobby judeu. A questão não reside, na verdade, no peso ou não das sanções econômicas no triênio 2010-2013, e que teriam levado à mudança, mas sim no caráter e contexto político que embasam os dois acordos.

Em 2010, o acordo tripartite foi resultado de uma bem estruturada negociação conduzida por países emergentes e liderados por personalidades políticas de visibilidade no Terceiro Mundo, os ex-Presidentes Lula no Brasil e Ahmadinejad no Irã, e o Primeiro Ministro Erdogan. Mesmo as negociações tendo sido apoiadas pela Casa Branca, estes líderes representavam fortes alternativas ao discurso político e estratégico de Washignton. Assim a conclusão do acordo representou, na prática, a consolidação de algo que estes líderes, principalmente o Brasil, estava defendendo em escala global: a necessidade de dar maior peso e legitimidade às nações emergentes do Terceiro Mundo como países relevantes na condução das grandes questões internacionais, e que demandava a revisão e reforma das estruturas de poder vigentes. Ou seja, de certa forma, o acordo significava o esvaziamento dos grandes poderes tradicionais, incluindo os Estados Unidos, as Nações Unidas na forma da AIEA, e representava este novo momento político mundial. Portanto, um esvaziamento que demonstrava outras formas de fazer política, com novos atores, e propostas, e que colocava em xeque o equilíbrio de poder vigente, que passava pela hegemonia e suas alianças prioritárias. Neste sentido, o acordo foi visto como uma ameaça a estas estruturas, podendo, ainda, favorecer a linha política conservadora de Ahmadinejad. Com isso, a Casa Branca retira seu apoio e passa a criticar o acordo e mantém a sua política unilateral e de sanções, a despeito da oposição sino-russa, que foi a característica do triênio 2010/2013.

Em 2013, à exceção da Turquia, que permanece sob a liderança de Erdogan (ainda que o seu governo esteja enfrentando desde 2012 inúmeros protestos), os demais países Brasil e Irã possuem outras orientações políticas. O Brasil tornou-se menos visível no mundo após 2011, e sustenta ações de baixo perfil em comparação com o governo anterior. O Irã, por sua vez, passou a ser liderado por um político de linha moderada, que se deparou com pressões econômicas internas e pressões políticas e estratégicas domésticas e externas. Isso permitiu que a Casa Branca, e as forças tradicionais (mesmo China e Rússia que eram contra as sanções unilaterais) no âmbito das Nações Unidas, ao lado da Alemanha, retomasse o poder de iniciativa, chegando ao atual acordo. Também contribuiu o agravamento das crises iraquiana, afegã e síria, assim como a disseminação da violência ao Líbano e as incertezas associadas ao pós-Primavera Árabe no entorno regional. Assim, fechou-se o acordo de 2013, em condições politicamente mais favoráveis, mas em condições e demandas sobre as partes, na prática, menores e mais frouxas que em 2010.

 

Considerando as recentes ações do governo Rohani no sentido de prospectar melhorias nas relações com Estados Unidos, Europa e petro-monarquias do Golfo, você acredita que haverá uma reaproximação também com a América Latina em breve?

Cristina Pecequilo – A reaproximação com a América Latina não é prioritária nem para o Irã e nem para os Estados Unidos no atual contexto. No caso do Irã, a grande preocupação do Presidente é conseguir uma dupla estabilidade, interna e externa, tanto em termos geopolíticos quanto geoconômicos. Para isso, a questão central encontra-se na articulação da posição iraniana vis a vis os Estados Unidos e no Oriente Médio, e o foco de sua política externa será direcionado a resolver esta equação. A mudança na política externa brasileira depois de 2011 e na situação da Venezuela, pós-morte de Chávez, igualmente, contribui para este distanciamento relativo do país com a região latino-americana, visto que seus principais interlocutores também passam por transformações. Com isso, a tendência, pelo menos no médio prazo é que se mantenha este distanciamento relativo entre o Irã e a América Latina.

A situação se estende aos Estados Unidos. A região ainda é percebida como uma zona estratégica secundária para os norte-americanos em comparação a estes outros cenários geopolíticos. Estes cenários tem mais capacidade de afetar diretamente os interesses globais norte-americanos, pela confluência de demandas estratégicas (bélicas, energéticas e territoriais) e pela presença de grandes poderes eurasianos na proximidade como a Rússia, a China e a Índia com os quais os Estados Unidos possuem relações que alternam fases de maior cooperação com maior enfrentamento pela ocupação de espaços no Oriente Médio e na Ásia Central. Mesmo com a União Europeia existem elementos de competição também por estes espaços. Assim, existe um quadro maior de disputa por espaços, pela reafirmação de poder geopolítica e geoeconômica local.

No caso da América Latina, as ameaças aos interesses dos Estados Unidos, e as possibilidades de confrontação, são mais baixas, mesmo com a crescente presença chinesa no continente americano (a qual os Estados Unidos têm reagido com novas propostas econômicas de ajuda e, principalmente, tratados bilaterais de comércio com algumas nações de menor poder relativo). Com isso, a hegemonia se sente razoavelmente segura de seu espaço de influência, e é também favorecida pelo apoio de parte das elites locais latino-americanas ao aumento da sua presença regional (e que defendem, mesmo no Brasil, a retomada de políticas de alinhamento). Os únicos elementos que poderiam alterar (como alteraram) esta equação de certa forma são políticas autônomas de auto-valorização dos espaços latino e sul-americanos, com a construção de arranjos de integração regional independentes, parcerias para o desenvolvimento e para uma defesa de uma globalização mais justa. Somente com estas ações, nas quais se enquadram iniciativas como a UNASUL, a ALBA, dentre outras, e que foram implementadas e disseminadas durante a era Lula-Chávez (2000/2010) é que a região ganhou visibilidade e importância política no radar norte-americano. Sem uma ação autônoma da região ela perde importância geopolítica e geoconômica diante dos Estados Unidos e, mais ainda, e o que realmente deve nos chamar a atenção, a região perde relevância para a própria região, prejudicando seus laços de cooperação Sul-Sul, acentuando as assimetrias Norte-Sul e as desigualdades locais.

 

 

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