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BRICS

O Brics é um grupo “não ocidental”, mas não “antiocidental”

Entrevista com Fyodor Lukyanov

Por Russia Direct | 16/07/2015

A recente Cúpula do Brics, que ocorreu em Ufá, na Rússia entre os dias 8 e 9 de julho, atraiu comentários nas mídias do mundo todo sobre o crescente papel que a Rússia e as outras nações do Brics – Brasil, índia, China e África do Sul – anseiam desempenhar no mundo. Devido à recente atuação dos BRICS na criação de arquiteturas geopolíticas alternativas para o mundo – como o Banco dos Brics e o Arranjo Contingente de reserva –, o site “Russia Direct” entrevistou Fyodor Lukyanov, um influente analista da política externa russa e presidente do Conselho de política Externa e Defesa.

Fyodor Lukyanov

Fyodor Lukyanov

Russia Direct: Quais são os resultados mais importantes da recente cúpula do BRICS e quais são suas implicações, principalmente para o Ocidente?
Fyodor Lukyanov: Não há motivos para falar de resultados práticos. O Brics é um processo, não é nem mesmo uma organização, mas um tipo de união que está surgindo juntamente com o seu desenvolvimento gradual. Todos os anos, os líderes dos países do Brics afirmam a sua intenção e o seu compromisso de trabalharem juntos e acrescentarem algo de novo à ordem do dia, mas não necessariamente tomar decisões específicas.

No entanto, houve uma grande mudança na cúpula do ano passado, em Fortaleza, quando os líderes decidiram criar o Novo Banco de Desenvolvimento e o fundo de reserva, cujas atividades tiveram início agora. Esse é um passo importante, porque, pela primeira vez, os Brics se moveram na direção de criar instituições internacionais alternativas. No entanto, os Brics não darão passos como estes todos os anos, isso porque este é um processo gradual. Em relação à importância dos resultados das reuniões, eu diria que a influência do Brics é um sinal do enfraquecimento gradual da influência do Ocidente no mundo. Essa atenção que o Brics tem atraído recentemente demonstra que o ocidente está ciente das suas próprias fraquezas e de que existirão instituições alternativas às existentes atualmente.

(…)pela primeira vez, os Brics se moveram na direção de criar instituições internacionais alternativas(…)

RD: As condições atuais realmente favorecem o desenvolvimento do Brics como um bloco?
FL: Apesar das diferenças entre os países, as condições atuais favorecem a atuação dos Brics, mas isso não significa necessariamente que uma nova arquitetura geopolítica está emergindo frente a nossos olhos. Este é um processo muito lento e que depende de diferentes circunstâncias.

RD: O Ocidente pode até perceber uma perda de influência no mundo, mas ele também não vê o Brics como uma séria ameaça…
FL: No momento, não há ninguém que desafie seriamente o Ocidente. Os países membros do Brics – com exceção da Rússia, que está impaciente por determinadas razões –, não querem dar a impressão de que estão se reunindo contra o Ocidente. O Brics é um grupo ‘não ocidental’, mas não ‘antiocidental’.

RD: Como você avalia a possibilidade de outros países, como o Paquistão ou o Irã, se unirem ao grupo?
FL: É muito difícil pois, primeiramente, o Brics é mais como um clube – muito parecido com o G7 – que reúne países que tem interesses em comum, do que uma organização na qual é possível aderir e se tornar um membro formal. Apesar de não haver oficialmente nenhum critério, informalmente, eles existem. Os países que aderem ao Brics devem ter soberania completa; o que significa que eles têm que ter a capacidade de desenvolver uma política independente, ou seja, que não estejam inseridos em alianças que impõem restrições. Paralelamente, precisam ter potencial econômico para serem capazes de implementar essa política independente. Nesse sentido, existem poucos países do mundo que atendem a esses critérios atualmente.

Ufá - Russia, 09/07/2015. Presidenta Dilma Rousseff durante VII Cúpula do BRICS. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Ufá – Russia, 09/07/2015. Presidenta Dilma Rousseff durante VII Cúpula do BRICS. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

RD: Do seu ponto de vista, quais são as chances do Brics conseguir reformar o sistema financeiro internacional?
FL: Se novas instituições alternativas começarem a surgir, eu acredito que elas poderão aumentar sua influência e sua presença no sistema financeiro internacional. No entanto, não é uma questão de substituição das instituições existentes (como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional), mas sim da criação de novas alternativas e de novas oportunidades.

RD: É dito que o Kremlin anseia que o Brics seja capaz de substituir o Ocidente no que tange ao fortalecimento de sua economia enfraquecida. É dito até mesmo sobre uma aliança tecnológica dos Brics, você concorda com isso?
FL: A ideia de uma aliança tecnológica dos Brics requer um trabalho muito minucioso e de larga escala. Como um ideal funciona muito bem, mas na prática nem tanto. Isso porque, mesmo que fosse possível ser implementado em alguns campos, exigiria um trabalho extremamente minucioso, como por exemplo, na busca por mercados comuns que reuniriam esforços intelectuais e tecnológicos conjuntos. E este não seria um trabalho fácil, pois, ao contrário da Rússia, os outros países membros do Brics não estão restritos às tecnologias do Ocidente e tem um espaço maior de manobra, ou seja, a Rússia teria que convencê-los que a Aliança tecnológica é realmente necessária para os Brics.

RD: Levando em consideração que o Brics reúne grandes potências regionais, quem poderia ser o líder do bloco?
FL: O Brics não pode ter um líder, caso isso ocorra, não existirá um bloco. Os membros do Brics não concordam com a ideia de obedecer outra nação dentro do bloco, nesse caso, deve existir um sistema no qual todos tenham a autonomia perante seu desenvolvimento, sem que este seja regulado por outra nação.

RD: E quanto as diferenças entre os interesses dos Brics que podem contradizer um a outro? A recente visita da presidente Dilma Rousseff aos EUA ou a viagem do primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, à Europa foram interpretadas por alguns como uma fraqueza do Brics, mostrando que não há unidade entre os membros, e que o Brasil e China ainda preferem colaborar com o Ocidente. Você concorda?
FL: Mais uma vez, nenhum dos países do Brics diz que vai rejeitar algum tipo de colaboração com o Ocidente. É contra produtivo ver a questão dessa forma. E a Rússia, da mesma forma, não vai fazê-lo, apesar da situação atual. Nós não diremos que boicotamos o Ocidente, e nenhum dos países do BRICS irá rejeitar o Ocidente, pois eles têm laços muito estreitos com ele.

(…)cada país do Brics é uma grande potência regional e exerce um papel muito importante em suas respectivas regiões(…)

RD: Mas há a possibilidade de estes estreitos laços entre os países do Brics e o Ocidente levar a uma cisão ao bloco caso haja uma pressão do Ocidente?
FL: Os países ocidentais, naturalmente, exercem uma pressão, isso ocorre porque cada país do Brics é uma grande potência regional e exerce um papel muito importante em suas respectivas regiões, isso é um fato que o Ocidente leva muito em consideração, e isso é comum nas relações internacionais.
Mas essa, na verdade, é uma questão da capacidade de se estabelecer boas relações. Porém, devemos basear essa questão no fato de que esses países não estão localizados em um vácuo, mas sim no mundo real.

RD: Alguns economistas expressam uma visão negativa sobre o Brics, dizendo que o mesmo não funcionará e descrevendo-o como “uma falsa esperança” por conta de suas falhas estruturais, das assimetrias nos padrões de vida, crescimento, desenvolvimento e, mais importante ainda, por conta da desigualdade na distribuição da população. Neste sentido, quais são os principais desafios para os Brics?
FL: O maior desafio para todos os países membros do Brics é o seu próprio desenvolvimento, dessa forma, todos irão se preocupar em criar novas oportunidades e, sendo estes países capazes de criar essas novas oportunidades, o bloco e seus países se desenvolverão muito bem.

Postado originalmente por Russia Direct

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