sexta, 20 de outubro de 2017

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AMÉRICA LATINA

Qual o olhar de Trump para América Latina?

entrevista com Cristina Pecequilo

Por Natalia Lima de Araújo | 13/02/2017

Há menos de um mês na presidência dos Estados Unidos, Donald Trump anunciou medidas que têm chocado as pessoas em todo o mundo. A construção do muro na fronteira com o México, o desmonte do programa de saúde e a proibição de entrada de cidadãos vindos de sete países de maioria muçulmana mostram a tônica da política estadunidense pelos próximos quatro anos. Apesar do discurso nacionalista de Trump, que pretende voltar o olhar para dentro do próprio país, aqui na América Latina continuamos em alerta com os termos da relação entre a região e a potência global, pois “a ideia de que os republicanos são menos intervencionistas é enganosa, basta lembrar do governo recente de W.Bush e de seu pai H. Bush. O intervencionismo é padrão dos dois partidos, democrata e republicano igualmente, o que muda é o seu padrão tático e a justificativa utilizada”. Para discutir mais sobre o assunto, a AMERI entrevistou Cristina Pecequilo, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e autora do livro Os Estados Unidos e o Século XXI.

Trump

Peña Nieto e Trump. Foto: Henry Romero/REUTERS

 

Algumas análises sobre a política externa dos Estados Unidos colocam que os republicanos costumam ser menos intervencionistas em sua atuação. Essa tendência se verificará com Trump? A ofensiva conservadora na América Latina, apoiada por um projeto imperialista estadunidense, continuará com a mesma intensidade?
A ideia de que os republicanos são menos intervencionistas é enganosa, basta lembrar do governo recente de W.Bush e de seu pai H. Bush. O intervencionismo é padrão dos dois partidos, democrata e republicano igualmente, o que muda é o seu padrão tático e a justificativa utilizada. Em um governo de tendência unilateral como Trump não há porque abandonar este instrumento de poder. A ofensiva na América Latina me parece sofrerá um problema de eficiência: enquanto Obama estava preocupado em se aproximar dos países locais e fazer acordos, dando às elites conservadoras algo a apresentar como “conquistas” da relação bilateral, Trump não terá a mesma preocupação em agradar e cooptar estes grupos. Assim, a tendência é de um vácuo que pode enfraquecer estes governos como no ciclo anterior dos anos 1990, abrindo espaço para a retomada de forças progressistas. A questão é que estas forças precisam estar atentas e se reformular igualmente.

Em sua opinião, como ficarão as relações entre os Estados Unidos e o México com o anúncio da proposta de construção de um muro para deter imigrantes e com o aumento das tarifas de importação de produtos mexicanos? Essas questões geram atritos políticos, mas a economia mexicana é altamente dependente da estadunidense; levando isso em consideração, como o México poderá reagir?
As relações com o México ficarão cada dia mais tensas, as ações de Trump contra o país são simbólicas da sua presidência espetáculo e da necessidade de agradar a base que o elegeu. É possível que Trump mantenha suas medidas de pressão ao México, e isso vá se refletir na necessidade do México buscar outras opções. O grande problema é que as opções são escassas pela dependência excessiva que se criou com os EUA, a ausência de alternativas (seria a China a base) e as pressões que as próprias elites mexicanas e companhias norte-americanas farão ao país para não romper em definitivo.

A linha da política externa do governo golpista de Temer é de realinhamento com os Estados Unidos. Entretanto, com Trump na presidência, o país tende a adotar uma postura protecionista e nacionalista, mais avessa a alianças, frustrando, assim, as expectativas de Temer e Serra. Diante desse cenário, você observa algum sinal de reconfiguração na política externa brasileira? É provável que os Estados Unidos abram algum espaço para o Brasil?
Embora seja um clichê que tem sido repetido muito, vale a pena retomar: a política externa está à deriva. A aposta era na continuidade da agenda democrata com Clinton e agora a chegada de Trump ao poder coloca todo um planejamento em xeque. Mais uma vez o ciclo anuncia recuo e crise, e a possibilidade de mudança. Por enquanto, pode-se notar duas coisas: um silêncio quase que generalizado no alto escalão, sem grandes manifestações e alguns ajustes mínimos dizendo que é preciso conhecer melhor a agenda, repensar etc. Mas é preciso um novo ciclo, não sei se antes de 2018 isso se concretiza
por aqui.

Em janeiro, Trump assinou uma ordem executiva retirando os Estados Unidos da Parceria Trans-Pacífico (TPP), da qual também participam México, Chile e Peru. Considerando que a retirada estadunidense praticamente impõe a derrocada ao bloco, você acha que existem possibilidades de que os três países latino-americanos voltem suas políticas comerciais para os vizinhos regionais, ou é mais provável que os Estados Unidos os capturem através de acordos bilaterais de comércio?
Ao longo dos anos, criou-se um mito de que estes acordos bilaterais de comércio seriam favoráveis aos parceiros latino-americanos (que faz parte também da projeção de poder ideológico das elites conservadoras nestes países e dos EUA), todavia basta olhar os números das balanças comerciais e seus perfis para verificar que os acordos só foram firmados com países cujo nível de dependência do mercado norte-americano era grande. O acordo não muda estruturalmente a relação. Por isso, na prática, eles pouco avançam, e isso permitiu que estes mesmos países fizessem outros acordos entre si, vide os projetos regionais liderados pelo Brasil, e os acordos bilaterais com a China, cujo crescimento na região foi exponencial. Trump manterá o mesmo padrão, assim como o Congresso, não há qualquer sinalização de abertura comercial dos EUA. Isso favorece a China e poderia continuar favorecendo o Brasil, caso o Brasil tivesse mantido sua agenda autônoma.

Você acha que existe alguma chance de ocorrer, no governo Trump, a derrubada do bloqueio econômico a Cuba e o fechamento da prisão de Guantánamo?
Acho que não, não acho que Trump reverta as ações de Obama, mas também não vejo avanços. Vai ficar uma política inercial, na qual se mantém os pilares da abertura, mas não se avança muito.

 

Natalia Lima de Araújo é mestranda do Instituto de Relações Internacionais da USP, onde estuda movimentos sociais transnacionais, e integrante da coordenação nacional da AMERI.

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