domingo, 24 de setembro de 2017

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REBELIÓN

A agenda perdida do progressismo e a nova onda de mobilizações

Um ciclo histórico que chega ao seu limite pede mudanças estruturais. A voz das ruas ganha um sopro de juventude e esperança de mudança diante dos retrocessos na região latino-americana.

Por Salvador Schavelzon | 29/06/2016

O novo século começou no mundo com fortes mobilizações de distinto caráter mas que podiam ser compreendidas como parte de um movimento contrário à globalização neoliberal. Não havia uma instância internacional de coordenação destes protestos, mas estes podem ser associados a um mesmo horizonte de época. A América Latina foi parte ativa deste ciclo, com mobilizações contra a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), e levantes  que expulsaram presidentes com agendas neoliberais na Argentina, Bolívia e Equador, assim como resistência a tratados de livre comércio no México, ou o rechaço a ajustes.

progressismo

Junho de 2013, Occupy Wall Street, o 15M espanhol, a primavera árabe e o recente Nuit Debout na França: crítica “desde fora e abaixo” de todo sistema político. Foto: Occupy.com

 

No Brasil, o Fórum Social Mundial, inicialmente criado como oposição ao Fórum Econômico de Davos, somou-se a outros movimentos sociais em ebulição, os quais foram centrais nos protestos latino-americanos, em um momento em que era possível aglutinar setores tão diversos que podiam mostrar-se simpáticos a Chávez ou pelo Subcomandante Marcos, definir-se como autônomos e horizontais, receber financiamento de ONGs ou ser um sindicato aliado a um partido. Estudantes, professores, camponeses, indígenas, trabalhadores sem-terra ou desempregados contribuíram para que fosse possível uma mudança na via política que fora registrada eleitoralmente na maioria dos países da região.

Boa parte da energia despendida nas mobilizações transformou-se em apoio a novos governos progressistas, em alguns lugares protagonizado pelos próprios movimentos, em outros levando a cabo medidas exigidas por eles em anos anteriores. Uma política que girava em torno da dinâmica eleitoral, nos grandes meios de comunicação e cada vez mais nas redes sociais, deixou as ruas para novos participantes. Em um mundo de “Guerra ao Terror”, BRICS e a elaboração de uma nova crise econômica mundial, passariam-se dez anos até que um novo ciclo de mobilizações se reiniciasse.

No auge do progressismo sul-americano, setores críticos ao governo e que se mobilizavam a partir de novos conflitos manteriam certa conexão com as novas modalidades e perspectivas políticas já expressadas no momento anterior de mobilizações antineoliberais e altermundiais. Desde assembleias ou movimentos auto-organizados, e com uma crítica transversal a toda classe política, mostrariam criatividade mas, neste momento, pouco impacto. Ao mesmo tempo, ia consolidando-se uma agenda política nova ante a persistência da violência policial nas periferias, a ameaça sofrida por populações e meio ambiente contra o avanço do extrativismo e grandes obras, ou a timidez para consolidar direitos sociais e escutar as minorias.

O distanciamento das manifestações por organizações aliadas ao progressismo, mesmo quando agendas como a reforma agrária e a ampliação de direitos trabalhistas eram interrompidas ou ignoradas, faria com que grandes movimentos sociais e sindicatos deixassem de ser componentes centrais da mobilização. As forças que não perderam capacidade de expressão, porém, não encontrariam espaços para denunciar a continuidade do neoliberalismo em cenários claramente desmobilizados e envoltos em narrativas midiáticas que priorizavam outras temáticas. Qualquer proposta política que tivesse os olhos para além da conjuntura política nacional, ou de caminhos políticos que não fossem aqueles do mercado e o Estado, ademais, manter-se-ia silenciada perante dois grandes aparatos de criação de relatos que não questionavam essa predileção por histórias de líderes carismáticos reformadores ou bandidos no poder.

Durante o tempo do progressismo, também se mobilizariam setores da classe média não organizados em movimentos e que não tinham sido protagonistas do ciclo anterior de protestos, mas que saíram às ruas em diversos países. Levantavam pautas como corrupção, segurança, autonomia política para regiões abastadas, ou críticas a medidas políticas que os afetavam. Como o progressismo, esses setores focavam seu discurso em figuras presidenciais ou em partidos do governo, e neste sentido não eram invisibilizados, mas sim muito bem reforçados pela polarização midiática imperante.

Os estrategistas dos governos progressistas atenderiam melhor às reivindicações da classe média, acolhendo-as discursiva e politicamente. Face àquelas que mais contrapunham-se a sua identidade política, oscilariam entre a indiferença, o enfrentamento discursivo pelo pragmatismo e a repressão. Somente na Venezuela viveu-se uma tentativa de aprofundar reformas, enquanto noutros países seria mais visível uma guinada conservadora, com aproximações da agenda religiosa e alianças empresariais, gerando políticas muito difíceis de justificar. Aprovariam-se leis ou ações antiterroristas contra os mapuches no Chile, contra a Copa do Mundo no Brasil ou conflitos em exploração de recursos minerais em outros países. Perseguiriam líderes sociais ou movimentos ecologistas tidos pelo poder como obstáculos ao desenvolvimento.

As manifestações de Junho de 2013 no Brasil, ou de distintos setores na Bolívia e no Equador que assemelham-se mais com a conflitividade do período que antecipou a chegada do progressismo do que com as classes médias opositoras que também estavam nas ruas, mostraria novas forças e modalidades de protesto que anteciparam o fim de um ciclo iniciado quando caíram os governos dos anos 90, identificados com a defesa da privatização e aplicação acrítica dos programas de ajuste das organizações internacionais de crédito.

As recentes derrotas eleitorais em vários países sul-americanos reabrem a possibilidade de uma nova fase de mobilização, com a possível articulação de forças que enfrentaram o progressismo com outras que rejeitam o fim ou a ameça do fim de uma série de políticas de inspiração social e estatal impulsionadas pelo governo. Os novos governos verão a possibilidade de voltar ao começo do século, com manifestações a favor e contra o progressismo. Ao mesmo tempo, evidenciarão a necessidade de retomar uma agenda antineoliberal enfrentando um arcabouço político posto em funcionamento décadas atrás, mas que o progressismo não buscou desarmar de forma estrutural.

No Brasil, os grupos de classe média que encabeçaram protestos a favor do impeachment já dão mostras que não permanecerão mobilizados, embora o novo governo não atenda aos reclamos que reivindicavam. As características adotadas pela mobilização neste novo contexto deverão definir-se entre duas lógicas e visões políticas distintas que puderam dialogar nas manifestações dos anos 90 e 2000, mas que durante o progressismo encontraram-se em oposição.

Em tempos do novo governo (interino) de Michel Temer, parte da resistência canalizará seus esforços na estratégia de recuperação das instituições. A exigência de novas eleições ou da reivindicação da volta para o governo deposto, combinam-se com ações judiciais e articulação política, agregado a um chamado de mobilização que até agora não mostrou capacidade de impacto e grandeza para influenciar os acontecimentos.

Esta saída política “por cima” aponta suas esperanças e energias para a cabeça do executivo, subordinando a mobilização à resolução do enredo na instância institucional e nem sempre aceitando discutir o projeto que se defenderia em uma volta ao governo. Mediante a construção de frentes unificadas no rechaço ao novo governo, também se mobilizará com este horizonte institucional o arco político-partidário que se opôs ao impeachment sem ter abandonado a crítica ao PT e aliados, desde a reforma da previdência em 2003 até a política de austeridade de 2015.

Voltando às manifestações altermundistas do começo do século, assim como as forças destituintes e insubordinadas mostradas nas ruas em Junho de 2013, abre-se do mesmo modo, no Brasil e em outros lugares, a possibilidade de um rechaço “de baixo” às políticas do novo governo que aprofundem a guinada conservadora ou avance contra as políticas progressistas iniciadas na gestão anterior. Sem um objetivo eleitoral ou partidário, buscar-se-á resistir e impor limites a uma mobilização que aspira se fortalecer sem deixar as ruas. As vezes só é preciso pensar em um número para o dia e uma letra para o mês para colocar em prática uma manifestação que não surja da articulação de dirigentes e que logre produzir efeitos por sua própria natureza, sem necessidade de mediações que busquem traduzi-la institucionalmente.

A falta de verticalidade e hierarquia destas mobilizações as fazem irredutíveis a negociações que finalizem seus resultados. Sua horizontalidade e dispersão permite somar inúmeras posições e reivindicações em uma força que se constitui como contrapoder sem almejar ocupar um lugar no governo. Sua força não só está dada por vir de baixo, conectar indignações e manter-se à margem da institucionalidade do sistema. Sua força relaciona-se também com sua forma de articulação sem cúpulas burocratizadas nem filiação a uma estrutura clássica. De sentido comum especialmente entre os jovens, não identificados com as organizações verticais, evitam a fragmentação que a falta de estrutura orgânica poderia levar com formas de conexão em rede. Estas mobilizações funcionam antes como performance que como discurso e projeto político alternativo.

Este tipo de protesto soa como irracional, infantil, ou subversivo para forças de repressão e interlocutores do Estado, mas também para uma esquerda dogmática e centralizada, para a imprensa e para as ciências sociais que exigem ou esperam propostas e demandas claras, interlocutores com rosto e biografia, trajetos da mobilização delimitados e horário para acabar devidamente estabelecido. Protestos como o Junho de 2013, Occupy Wall Street, o 15M espanhol, a primavera árabe e o recente Nuit Debout na França, não se adaptavam a estes parâmetros, como crítica “desde fora e abaixo” de todo sistema político, mas também a um modelo de sociedade e civilização. Esta realidade utópica não a paralisa, daí deriva sua força de rápida difusão e impugnação política.

Desde este lugar, que encontra jovens das grandes cidades com vozes marginalizadas, de visão descolonizadora ou comunitária, observa-se com clareza o esgotamento de alternativas já neutralizadas pelo neoliberalismo, como o caso da social-democracia europeia e, pelo mesmo caminho, o progressismo latino-americano. Também fica claro o rápido disciplinamento de opções inicialmente de ruptura, quando estas não questionam os limites de representação política, e se limitam a um cenário de “por dentro e acima”, limitado à dimensão nacional e institucional, sem se propor a mudar as regras de um jogo de um sistema alheio.

 

Publicado originalmente no site da Rebelión. Tradução livre por Giovane Gomes.

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