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A América Latina diante do enigma chinês

Poder global crescente de Pequim pode livrar região da dependência secular diante de Washington. Mas falta projeto próprio, que não signifique mera troca de patrões

Por Alfredo Serrano Mancilla, na Alai | Tradução Inês Castilho | 05/08/2015

Muito se escreveu no século XXI sobre o papel da República Popular da China no mundo. Contudo, as agências norte-americanas de classificação de risco não a enxergam, ao fazer avaliações para muitos países na América Latina. Na mesma linha estão organismos internacionais, com a liderança do Fundo Monetário Internacional, que encobrem as relações do gigante asiático com a região em assuntos comerciais, financeiros, tecnológicos, energéticos e de investimentos. Tanto uns como outros vêm proclamando que Argentina e Venezuela, por exemplo, padecem de um preocupante estrangulamento financeiro externo; ou que estão em plena insolvência, sem recursos para o pagamento de credores internacionais. Essa teoria se afirmaria se deixássemos fora do mapa mundi tudo o que a China representa, tanto no terreno geopolítico como geoeconomicamente. Pois não existe passe de mágica que possa fazer desaparecer os 1,3 bilhão de chineses que habitam o país mais povoado do planeta. Tampouco é possível passar por cima do fato de que hoje a China representa 16,5% da economia mundial (frente a 16,3% dos EUA); ou que o Banco do Povo da China possui quase quatro bilhões de dólares em reservas internacionais, e que o yuan se converteu consequentemente na sétima divisa mais usada para pagamentos internacionais.

Ilustração: reprodução.

Ilustração: reprodução.

 

O yuan como contrapeso ao dólar
Apesar de tudo isso, a China só tem 3,81% dos votos na direção do FMI, muito longe do que ela realmente representa no contexto econômico mundial. O FMI não tem regras democráticas, nem que respondam à potência econômica, porque não permite que Pequim possa ampliar sua participação para alcançar ao menos o mesmo poder de veto que têm hoje os Estados Unidos (que participam com 16,74%). Em resposta, a China acaba de abrir uma nova instituição financeira, o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII), ao qual já aderiram uns 57 países (além dos BRICS, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Holanda, Austrália, Espanha, Coreia do Sul, Israel). O Consenso de Pequim, como certos autores o chamam, é uma realidade a favor de uma nova diplomacia financeira.

A China continua aumentando seus investimentos diretos no exterior: em média, 200 bilhões de dólares anuais; embora menos que os Estados Unidos, que investem 367 bilhões anualmente, mas cada vez mais em seus calcanhares. Pequim situou-se no centro de uma gravitação econômica mundial alternativa, o que obriga os Estados Unidos a abandonarem, pouco a pouco, sua hegemonia unipolar. Este novo polo foi capaz, além disso, de estabelecer fortes laços com o resto dos blocos geoeconômicos, com relações muito fortes entre si, não unicamente comerciais, mas que abarcam outras dimensões, também políticas.

 

China, a nova aliada
Embora sob o protesto dos poderes econômicos tradicionais, a China é um parceiro estratégico real e muito pró-ativo para a América Latina, na nova era global. Desde o início do século XXI, ela conseguiu multiplicar por vinte o volume de seu comércio bilateral com os países que formam a Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos). Na cúpula do bloco, no início de 2015, comprometeu-se a investir na América Latina nos próximos dez anos um total de 250 bilhões de dólares — uma média de 25 bilhões anuais, muito acima dos 10 bilhões que mantinha em média nos anos anteriores a 2010.

Esses números não se referem a comércio intra-regional nem a financiamento tradicional, mas a investimentos em setores chaves (infraestrutura, indústria, tecnologia, energia, comunicação). Neste âmbito, o potencial é muito grande, porque atualmente só 4,1% dos investimentos diretos das empresas chinesas no exterior dirigem-se à América Latina. O valor comprometido para a próxima década é um salto quantitativo e qualitativo. Some-se a isso que o próprio presidente chinês, Xi Jinping, incentivou um esforço para duplicar o volume de comércio bilateral para até 500 bilhões de dólares, ao longo dos próximos dez anos.

São números nada desprezíveis, num momento de transição geoeconômica em que se disputa o sentido da nova ordem econômica mundial. A América Latina mantém com o gigante da Ásia uma relação privilegiada, que não deve converter-se em efeito bumerangue. No atual processo de mudança de época, a China é um aliado capaz de facilitar a nova reinserção econômica soberana e estratégica no sistema econômico — sempre e quando isso não signifique ser um aliado-possessivo. Quer dizer, a América Latina precisa da China como parceiro, não como patrão.

Eis aqui a grande pergunta do milhão. Nestes anos, a China pode ser uma alternativa real para que a América Latina sustente o ritmo de crescimento necessário para colocar em prática políticas públicas a favor das maiorias. Muitos críticos de uma suposta neodependência em relação a Pequim ignoram que não há opção efetiva de curto prazo, para manter crescimento redistributivo, se em aliança com quem lidera a nova era econômica. É ingênuo acreditar que, partindo de onde estava, com economias golpeadas e endividamento social e financeiro, seria pensar em transformações estruturais sem superar as tensões próprias de uma conjuntura adversa.

Cada vez é mais comum, entre o pensamento não-convencional, pensar em longo prazo, evitando limitar-se ao curto prazo para resolver aquilo que afeta negativamente a maioria dos cidadãos. O assunto China precisa ser analisado e problematizado a partir dessa perspectiva econômica, social e política complexa e real, desde essa dialética entre o que é tático e o que é estratégico, entre as respostas de natureza circunstancial e as mudanças estruturais. É irresponsável criticar os novos laços entre a América Latina à China sem avaliar quais os verdadeiros desafios estratégicos do novo cenário econômico, naquilo que constitui a vida cotidiana das maiorias.

 

O Consenso Bolivariano da América Latina
Mas isso não pode e não deve significar que o futuro, que está em disputa e vai ser decidido nos próximos anos, continue no mesmo caminho do passado recente. Surgirão múltiplos desafios econômicos para estabelecer uma relação virtuosa. A América Latina precisa sair de vez do Consenso de Washington, sem cair nas redes de um possível Consenso de Pequim. Ainda que a nova diplomacia financeira chinesa seja menos invasiva do que foi a diplomacia financeira made em USA, o objetivo para a América Latina é constituir-se sob seu próprio consenso, no qual instituições como a Celac ou Unasul tenham firmeza e capacidade real para reinserir-se no mundo de forma emancipada.

A inserção do BRICS no mundo precisa passar, necessariamente, pela inserção latino-americana no mundo. Um Banco do Sul precisa ser a instância adequada para que a América Latina dialogue com o Banco de Desenvolvimento dos Brics ou com o BAII. Por exemplo, uma agência de qualificação de risco, como instituição pública e latino-americana, deveria ser a encarregada de avaliar a dívida pública em cada país da região, a partir de convênios com as novas agências econômicas chinesa ou russa — mas sem submeter-se a elas, como a região tem feito até agora com Fitch, Moodys ou Standard & Poors.

O sistema de arbitragem que se está sendo criado na Unasul deve ser a forma adequada para que a região se relacione com os investimento estrangeiros diretos que venham da China. Deve também ser discutida a distribuição do valor agregado gerado a partir das novas relações de integração produtiva entre China e América Latina. As condições de transferência de tecnologia e propriedade intelectual são outros elementos cruciais para repensar que tipo de relações com a China são as mais úteis para que a América Latina continue caminhando numa trilha de mudança a favor das maiorias sociais.

Diz um provérbio chinês, justamente, que “o fogo é fundamental para cozinhar, mas pode também acabar queimando a cozinha”. Neste caso, a América Latina necessita da China (e vice-versa, ainda que não na mesma proporção); mas a virtude reside em que essa necessidade não venha a se constituir numa limitação infinita para obter a segunda e definitiva independência da região. Na atual disputa geoeconômica mundial, não existem ilhas Robinson Crusoe nas quais se possa esconder ou asilar; o ponto de bifurcação está colocado entre a subordinação aos EUA e a inserção nos BRICS. A primeira via já tem o seu próprio currículo; a segunda ainda tem perguntas a ser feitas. Sua condição necessária não elimina os riscos que pode causar quanto a uma possível desaceleração ou impedimento de inserção regional soberana no mundo. Trata-se de avaliar as consequências desta nova paisagem geopolítica em favor da América Latina.

A chave será construir uma relação capaz de aproveitar o vento a favor, evitando que ele acabe fagocitando o processo de mudança regional que vinha se produzindo. Abre-se um cenário geopolítico novo e melhor, que exige, por sua vez, rediscutir e atualizar taticamente uma nova política econômica interna e externa, para não perder jamais o horizonte estratégico traçado a partir do Sul. Isso evitará os riscos de cair nas redes sedutoras de qualquer Outro Norte, se este vier a se produzir.

Mais do que nunca, é o momento para a América Latina latinoamericanizar integralmente a necessária relação com a China — mas de igual para igual, sem sentimento de inferioridade, com soberania e sem neodependência. Embora necessária, que seja apenas como condição temporária para alcançar a irreversibilidade deste processo de mudança, em sintonia com a continuidade do avanço em tudo o que falta conquistar.

 

Alfredo Serrano Mancilla é doutor em Economia, diretor do Centro Estratégico Latino-Americano de Geopolítica (CELAG).

Publicado por Outras Palavras.

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