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A economia chinesa: solução ou parte do problema?

China, antiga estrela econômica internacional, pode ser hoje parte da grave crise que afeta o mundo e incide com força na América Latina

Por Julio Sevares | 13/07/2016

A China deixou de ser a indiscutível estrela do êxito econômico e a locomotora do crescimento para converter-se em parte do problema da economia internacional.

economia chinesa

Segundo o autor, os principais países afetados pela queda da taxa de crescimento da economia chinesa foram aqueles dependentes de exportação de commodities. Foto: Reuters/Bobby Yip.

 

Desde o começo deste século e até a crise iniciada em 2008, a economia chinesa cresceu aproximadamente 10% e carregou o resto da economia mundial, especialmente aquelas exportadoras de matérias-primas. Para enfrentar a crise, o governo chinês implementou um pacote de medidas de investimentos públicos, bem como estímulos ao investimento, logrando um crescimento de 8,7% no ano de 2009, menor que os anos anteriores, mas muito alto em comparação com o resto das grandes economias.

As medidas de estímulos tiveram, não obstante, consequências que incindiram nos anos seguintes. Uma delas foi o forte crescimento do endividamento das empresas que, segundo a Standard&Poor´s, chegou a 160% do PIB no ano passado.

Outra é que o plano de estímulos gerou um choque de investimentos que acabaram por ser maiores que a capacidade de absorção do mercado, especialmente no setor imobiliário e nas indústrias localizadas em províncias que não queriam perder empregos.

Como consequência dos problemas internos e da baixa demanda externa pós-crise, o crescimento arrefeceu: o aumento do PIB passou de 10% em 2010 para 6,8% em 2015, com a expectativa de uma taxa menor este ano. Consultores e organizações privadas, como o Commerzbank da Alemanha, estimam que as estatísticas chinesas sobrestimam o crescimento, alegando que as taxas reais são ainda menores. O governo chinês designa este novo e mais modesto horizonte de crescimento como uma “Nova Normalidade”.

 

Reorientação Produtiva
Neste contexto, visando adequar a economia às novas condições internas e do mercado mundial, o XII Plano Quinquenal 2011-2015 e o XIII – que começa a ser implementado este ano, reorientam as alavancas de crescimento desde os investimentos e a exportação, até o consumo interno e de serviços, com uma maior atenção a problemas sociais, como os ambientais e a pobreza.

Como parte da política de modernização, o governo está implementando um programa de fechamento ou fusão de empresas pouco competitivas que mantêm-se vivas até o momento por razões políticas, conhecidas como “zumbis”. Também leva adiante uma política de redução da produção e processamento de carvão, a principal fonte energética do país, devido a razões ambientais.

A China conta com recursos para implementar suas políticas. Por um lado, tem um sistema financeiro sólido, mesmo que uma alta porcentagem dos empréstimos, especialmente do setor imobiliário, tenham riscos de falência e poderiam tornar-se problemáticos para o sistema. Também dispõe de enormes reservas que podem financiar tanto o investimento no exterior como suportar, sem esforço, fugas de capital como as que ocorreram nos últimos meses.

Ademais, a China desenvolve uma nova alavanca de expansão com o crescente fluxo de investimentos externos que constituem uma válvula de escape às limitações da economia interna.

América Latina e países da periferia têm recebido, nos últimos anos, um crescente aporte desses investimentos e, em 2013, integrou-se à Nova Rota da Seda (One Belt One Road – OBOR) de construção de infraestrutura de transporte em rotas que unem o gigante asiático com Europa Ocidental e África, atravessando Europa Oriental e Ásia.

 

O fator político
Oficialmente, espera-se que a perda de trabalho provocada por um menor crescimento e o ajuste produtivo, seja compensada pelos empregos criados em empresas mais dinâmicas da produção ou dos serviços, em decorrência de um programa oficial de subsídios e orientação a novos desempregados e por estímulos fiscais: no ano passado o governo deliberou um aumento do gasto público, admitindo um progressivo aumento do déficit fiscal, o qual passou de 0% em 2012 para 2,3% em 2015, segundo o FMI.

Contudo, tanto a Oficina Nacional de Estatísticas da China quanto observadores externos, convergem a respeito da perda de empregos e de um aumento de greves e reivindicações sociais, especialmente no interior do país.

Esta situação é determinante porque o Partido Comunista chinês necessita garantir a criação de empregos e a melhora da renda para sustentar o pacto social implícito pelo qual a população aceita as restrições às liberdades públicas em troca de melhores condições de vida.

 

Impacto na economia social
O nível de crescimento da China é fundamental. O país é a segunda economia do mundo e absorve 10% das exportações do resto do mundo.

Ano passado as compras chinesas no exterior caíram 13%, provocando uma queda nos preços das matérias-primas no mercado internacional, em particular o petróleo.

Paralelamente, em um círculo vicioso, a debilitação das economias e suas perdas de capacidades importadoras implicou em queda das exportações do país oriental em 2%, a primeira desde a crise de 2008.

Juntamente às preocupações que geram as tendências da economia real e da situação política da China, dois acontecimentos inesperados do ano passado agregam-se às incertezas: o primeiro é a queda da bolsa de Xangai, a principal do país, pelo estouro de uma bolha especulativa alimentada pelo próprio governo com crédito aos investimentos pequenos. O segundo episódio foi uma imprevisível e significativa desvalorização do yuan no mês de agosto. O Banco do Povo da China (Banco Central) informou que o ocorrido tinha como objetivo adequar o sistema de câmbio aos requisitos que estabelece o FMI para que o yuan seja incorporado à canastra que determina o valor dos Direitos Especiais de Giro. Mas, por sua vez, surgiu o temor de que isto havia sido uma resposta ao debilitamento exportador dos chineses ou, inclusive, produto de uma má decisão das autoridades.

 

América Latina em um novo cenário
Na América Latina o impacto tem sido sensível, especialmente para os países que aumentaram sua dependência na produção e exportação de produtos primários nos últimos anos. Em 2015 a região sofreu uma queda das taxas de crescimento, deterioração dos termos de intercâmbio e saída de capital, o que provocou desvalorizações.

Simultaneamente, registra-se uma crescente pressão de saldos positivos de exportação chinesa sobre as indústrias locais, conforme acontece principalmente com o mercado de aço.

Em síntese, o cenário econômico internacional tem deteriorado-se em relação ao período pré-crise de 2008 e os países latino-americanos enfrentarão uma demanda externa menos dinâmica com maiores pressões da concorrência.

 

Publicado originalmente no site da NUSO.  Tradução livre de Giovane Gomes.

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