quinta, 23 de novembro de 2017

Brasil no Mundo

Contribuições para a Política Externa Brasileira

receba a newsletter

busca no site

A OTAN tem um jeito bastante peculiar de demonstrar que não quer uma nova Guerra Fria

No primeiro dia da cúpula da OTAN, críticos condenam "o novo e perigoso plano" para provocar a Rússia e a destacada presença militar nas suas fronteiras

Por Nika Knight | 15/07/2016

No primeiro dia do encontro da OTAN no último final de semana em Varsóvia, Polônia, o secretário-geral da OTAN Jens Stolnenberg assegurou ao público, “Nós não queremos uma nova Guerra Fria. A Guerra Fria é história e deveria continuar como tal.”

OTAN

Tropas do Reino Unido praticam manobras durante o exercício militar da OTAN na Polônia, em 2014. Foto: Defence Images/flickr/cc.

 

Contudo, Stolnenberg pareceu simultaneamente desafiar essa declaração quando também anunciou que a “força de reação” da OTAN é atualmente três vezes maior em relação ao período da Guerra Fria – mais aumentos e receia-se que as recentes bravatas da OTAN levem a um grande conflito com a Rússia.

O presidente Barack Obama confirmou muitos desses receios quando revelou os planos para incrementar o número de tropas americanas na fronteira entre Polônia e Rússia, e anunciou a criação de uma nova base militar dos EUA na Polônia, como também a entrega do “mais avançado” equipamento militar dos Estados Unidos para a OTAN e as tropas polonesas.

Além do recente e gigantesco exercício militar da OTAN que simulou uma guerra com a Rússia, o aumento das tropas e da presença militar nas fronteiras orientais europeias “refletem uma nova e perigosa perspectiva estratégica em Washington”, escreveu Michael T. Klare para o The Nation.

Kare explicou a mudança drástica de estratégia assinalada nos comentários de Obama: “Enquanto anteriormente o foco estratégico era o terrorismo e a contra-insurreição, agora mudou para a guerra convencional entre as grandes potências. ‘Hoje, a segurança internacional é radicalmente diferente em relação aquela que vivemos nos últimos 25 anos’, observou o secretário de Defesa Ashton Carter em fevereiro, quando revelou o orçamento de 583 bilhões de dólares do Pentágono para o ano fiscal de 2017. Até recentemente, ele explicou, as forças americanas eram prioritariamente destacadas para combater insurgentes e forças irregulares, como o Talibã no Afeganistão. Agora, contudo, o Pentágono tem se preparado para “um retorno da competição entre as grandes potências”, inclusa a possibilidade de guerra total contra inimigos como Rússia e China.

As implicações orçamentárias e de emprego da força disso são enormes por elas mesmas, assim como essa adoção da “competição entre grandes potências” como diretriz da estratégia dos Estados Unidos. Durante a Guerra Fria, era bastante claro que a principal tarefa militar dos Estados Unidos era preparar-se para a guerra total contra a União Soviética, e que tal preparação deveria considerar a probabilidade de uma escalada nuclear. Desde então, as forças americanas se envolveram em lutas horríveis no Oriente Médio e no Afeganistão, mas nenhuma delas significou combate com outra grande potência ou trouxe algum risco de escalada nuclear – e todos deveríamos agradecer por isso. Agora, porém, o secretário Carter e seus assistentes estão seriamente pensando – e planejando conflitos que envolveriam outra grande potência e possivelmente aumentariam a tensão nuclear.

“Há a questão das profecias autorrealizáveis”, afirmou Klare. “Ao anunciar o retorno da competição entre grandes potências e preparar-se para uma guerra contra a Rússia, os Estados Unidos e a OTAN estão colocando em movimento forças que poderiam, no final, alcançar precisamente este resultado.”

“Isto não significa que Moscou é inocente no que concerne ao cenário preocupante ao longo das fronteiras orientais, mas certamente Vladimir Putin tem motivos para afirmar que as iniciativas da OTAN representam uma ameaça substancial para a segurança da Rússia e, desta maneira, justificam uma resposta russa. Esses movimentos ensejarão, claro, outros desenvolvimentos da OTAN, seguidos de adicionais ações russas, e assim por diante – até estarmos novamente numa situação semelhante à Guerra Fria”, observou Klare.

De fato, o Veteran Intelligence Professionals for Sanity (VIPS), um grupo de peritos e ex-peritos da CIA e do Departamento de Estado, publicou esta semana um memorandum solicitando à chanceler alemã Angela Merkel a se opor às bravatas da OTAN em direção à Rússia por razões semelhantes.

“Nós balançamos nossas cabeças em descrença quando observamos líderes ocidentais ignorarem o que significa para os russos testemunhar exercícios em escalas não vistas desde que os as tropas de Hitler lançaram o ‘Unternehmen Barbarossa’, 75 anos atrás, que causou a morte de 25 milhões de cidadãos soviéticos,” o VIPS declarou:

“Desde nosso ponto de vista, é irresponsavelmente leviano acreditar que o presidente russo Vladimir Putin não irá tomar medidas defensivas – quando e onde ele escolher.

Putin não tem a opção de tentar reassegurar seus generais de que o que eles ouvem e veem em relação à OTAN é mera retórica. Ele já está enfrentando crescente pressão para reagir de uma maneira inequivocadamente resoluta. Em suma, a Rússia provavelmente reagirá com força ao que considera como uma provocação injustificada, ou seja, os grandes exercícios militares ao longo de suas fronteiras ocidentais, incluindo a Ucrânia.”

No entanto, nem todos parecem concordar com as atitudes da OTAN.

Oficiais alemães, comparados com aqueles de outros países membros, claramente se opõem à escalada militar contra a Rússia. Na realidade, o ministro das Relações Exteriores alemão Frank-Walter Steinmeier condenou as simulações militares da OTAN no mês passado, e declarou à mídia, “O que não deveríamos fazer agora é inflamar mais ainda a situação por meio de intimidações e fomento da guerra.”

“Quem acredita que um desfile de tanques simbólico nas fronteiras ocidentais da Aliança trará segurança está enganado”, concluiu Steinmeier.

A Rússia também condenou as ações da OTAN, chamando-as de “histeria anti-Rússia.”

O porta-voz do Kremlin Dmitry Peskov disse à Reuters que era um “absurdo falar em ameaça russa enquanto muitas pessoas morrem no centro da Europa e no Oriente Médio diariamente”, adicionando que “é necessária uma visão muito míope para distorcer as coisas desta maneira.”

Alguns especulam que a motivação real por trás da escalada da OTAN contra a Rússia são os interesses dos Estados Unidos em garantir seu status de única superpotência mundial: “Sob o eufemismo de ‘containment’, os Estados Unidos avançam incansavelmente sua nova Guerra Fria contra a Rússia e a China”, escreveu John V. Walsh no Consortium News. “Seu instrumento no Ocidente é a OTAN e, no Oriente, o Japão e quaisquer outros países podem acabar envolvidos.”

“O objetivo da política externa dos Estados Unidos seria claramente a derrota de Rússia e China, mas mesmo se estes países ‘ganharem’, teriam perdas,” continua Walsh, “deixando os Estados Unidos como a maior potência econômica e militar do globo, como em 1945.”

Walsh complementa: “A Europa está começando a acordar para a situação. Existe a contestação por parte de Steinmeier. Porém, não é apenas a Alemanha que está preocupada. O Senado francês deseja um fim para as sanções impostas à Rússia. Executivos de vários países da Europa Ocidental, principalmente na Alemanha e na Itália, fazendeiros europeus que exportam para a Rússia e as indústrias do turismo turca e búlgara querem igualmente o fim das sanções e exercícios militares.”

Por sua vez, Klare argumenta que os líderes europeus não devem “permitir que suas inclinações” para “demonstrar unidade” e “agir de maneira determinada” levem-os a aprovar movimentos militares inerentemente desestabilizadores. Certamente é possível assegurar os Estados Bálticos e a Polônia sem destacar muitas milhares de tropas e incentivar uma resposta militar por parte da Rússia.”

 

Publicado originalmente no site da Common Dreams. Tradução livre por Lys Ribeiro.

registrado em:

VEJA TAMBÉM

grri@brasilnomundo.org.br