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INTEGRAÇÃO REGIONAL

A solução para o Mercosul é aprofundar seus laços

Durante evento na UFABC, participantes defenderam o aprofundamento da integração regional

Por Lys Ribeiro | 11/06/2015

Ao longo do processo de construção da integração regional no Mercosul, o bloco passou por duas fases cujos marcos principais de orientação estão no Consenso de Washington e, a partir de 2003, no Consenso de Buenos Aires. Agora, o desafio é constituir uma terceira fase, na qual deveria haver a ambição de associar o seu horizonte econômico-comercial ao espaço político da Unasul. É o que defendeu o ministro Miguel Rossetto, Secretário-Geral da Presidência, na tarde desta terça (9) na Universidade Federal do ABC, em São Bernardo do Campo. Ao longo da palestra, os participantes concordaram que a solução para a crise de cunho econômico e político experimentada atualmente é o aprofundamento da integração dentro e, igualmente, associado ao bloco.

Mercosul

(Esq.) Diretor de Mercosul do Itamaray, Reinaldo Salgado; Alto Representante-Geral do Mercosul, Dr. Rosinha; Secretário Geral da Presidência, Ministro Miguel Rossetto; e Coordenador do bacharelado em Relações Internacionais da UFABC, Giorgio Romano. Foto: Naiara Pontes/SG.

O evento “O Futuro do Mercosul”, fruto de uma parceria entre a universidade, o Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI, a Secretaria Geral da Presidência e a Alta Representação do Mercosul, foi realizado com o objetivo de debater os principais desafios e perspectivas do Mercado Comum do Sul. Além de Rossetto, participaram da mesa o Alto Representante-Geral do Mercosul, Dr. Rosinha, e o Diretor do Departamento de Mercosul do Itamaraty, o embaixador Reinaldo Salgado. A mediação da mesa ficou a cargo do coordenador do bacharelado em Relações Internacionais da UFABC, Giorgio Romano.

O Mercosul surge na esteira da redemocratização dos países na América do Sul, quando Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai assinaram o Tratado de Assunção, em março de 1991. A própria constituição do bloco foi um avanço substantivo rumo à consolidação das democracias do subcontinente, o desenvolvimento dos Estados de Direito e a consolidação de um espaço de paz na região, pois, o que havia de concreto até então, era a integração dos aparelhos repressivos das ditaduras sul-americanas através da Operação Condor, ressaltou Dr. Rosinha. “A integração veio a ocorrer em um momento importante após o fim das ditaduras militares. Se o Mercosul não tivesse valor nenhum, [ainda assim] teria só pelo que representa na construção da paz na região, só por isso já seria suficiente” ressaltou o alto representante-geral do bloco.

Nesse aspecto e concordando com os demais palestrantes, o embaixador Reinaldo Salgado fez um paralelo histórico em relação à integração ocorrida no continente europeu, apontando que qualquer processo de integração é, em primeiro lugar, político: “É assim com o Mercosul e é também com o processo de integração mais desenvolvido que temos hoje, a União Europeia, criada em resumo para evitar uma terceira guerra. Este era o objetivo, que foi alcançado com êxito”, lembrou.

Desde a aproximação fundamental entre Brasil e Argentina na virada da década de 1990 e, atualmente, com a Venezuela adicionada e a Bolívia em processo de adesão, o Mercosul representa um importante instrumento de crescimento e desenvolvimento econômico para as economias regionais. “Estamos falando de 24 anos de experiência, um tempo de acúmulo importante na região e a confirmação de uma estratégia correta”, afirmou Rossetto. O incremento das trocas comerciais intrabloco é um indicativo de que o Mercosul está no caminho correto, na visão do ministro. Para ilustrar isso, ele lembrou que houve um aumento 4,5 bilhões de dólares em 1991 para 60 bilhões de dólares em 2013 nas trocas comerciais do bloco. “O comércio foi estimulado pelas políticas de integração, e esse crescimento econômico foi capaz de sustentar, financiar e abastecer um processo importante de melhoria na renda e na qualidade de vida dos povos dos países-membros nos últimos anos”, complementou.

Tema constante no debate público nacional, as opiniões sobre o Mercosul experimentaram uma polarização mais intensa durante as eleições presidenciais no ano passado. Em geral, seus críticos defendem desde a flexibilização até o encerramento total das atividades do bloco, argumentando que o Brasil deveria dar prioridade aos acordos bilaterais de livre comércio e aos modelos de integração que seguem o estilo da Aliança do Pacífico (bloco fundado em 2012 composto por Chile, Colômbia, México, Peru e Costa Rica). “Na realidade, apesar de toda a propaganda [negativa], o Mercosul tem mais comércio com os países da Aliança do Pacífico do que os países da própria aliança têm entre si”, afirmou o embaixador Salgado.

Se na esfera econômico-comercial o Mercosul é um importante instrumento para o crescimento das economias da região, em outras áreas ainda existem muitos desafios pela frente. Um dos mais urgentes, de acordo com os participantes da mesa, é a configuração de uma identidade comum nos âmbitos político e cultural. “Nós não temos uma identidade comum, não temos um conjunto de iniciativas que compõe essa ideia de uma cidadania comunitária no espaço de integração do Mercosul”, ressaltou Rossetto.

De fato, a constituição identitária – política e cultural – e cidadã comum na região é uma das principais bandeiras que o alto representante-geral do bloco, Dr. Rosinha, defende em sua gestão. “Não há integração se não há identidade. Temos um instrumento para construir a identidade política que é o Parlamento do Mercosul. Se não houver eleições diretas [para o Parlasul], não poderemos corrigir o déficit democrático que o Mercosul apresenta hoje”, apontou.

A próxima Cúpula do Mercosul está prevista para 17 de julho em Brasília, quando o Brasil entrega a presidência rotativa pro-tempore do bloco para o Paraguai.

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