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AMÉRICA LATINA

As direitas profundas da América Latina

O ressurgimento das direitas na América Latina pode ser explicado tanto pelo desgaste natural do exercício dos governos progressistas quanto pela manutenção, em termos sociais, do conservadorismo

Por Massimo Modonesi | 13/10/2016

Nos últimos tempos, as direitas latino-americanas têm se mostrado muito ativas e conquistado vitórias significativas. A última, por ordem de aparição: o descarrilamento do processo de paz na Colômbia. Em menos de dois anos, as direitas ganharam as eleições na Venezuela e na Argentina; impediram a possibilidade de outra reeleição de Evo Morales na Bolívia e, por outros meios, também de Rafael Correa no Equador, aparentemente; no Brasil, destituíram Dilma e encurralaram Lula; disputaram entre si o segundo turno das eleições presidenciais no Peru. Em prospectiva, ameaçam ganhar um referendo destituinte na Venezuela e se apresentam como favoritas nas eleições mexicanas de 2018, isso sem considerar todas as reviravoltas e eventualidades que podem ocorrer no tradicionalmente incandescente ano pré-eleitoral. Poderíamos seguir com a lista, apontando inclusive as poucas exceções que, entretanto, não são totalmente alheias à tendência geral, como, por exemplo, no caso do Uruguai e de Nicarágua, onde a “direitização” parece se produzir a partir de dentro do progressismo local, mais do que pelo fortalecimento visível de oposições claramente neoliberais.

América Latina

No início de outubro, o ‘não’ venceu com um pouco mais de 50% dos votos dos colombianos no referendo sobre o acordo de paz entre as FARC e o governo da Colômbia. Foto: Luis Acosta/AFP.

 

Se em alguns destes países, como Colômbia, Peru e México, a “direitização” se produz no interior de cenários políticos que nunca deixaram de ser neoliberais e conservadores, é mais alarmante que a tendência se manifeste também, e de forma contundente, em países onde, durante mais de uma década, forças progressistas estiveram no governo.

No que diz respeito a estes casos, o retorno das direitas remete a muitas causas cuja correlação é difícil de ser decifrada. Limitar-me-ei a apontar, de forma sucinta, duas delas – a primeira de ordem econômica e a segunda de ordem política – para pôr em evidência o peso político que alguns aspectos estruturais adquirem em tal conjuntura.

No plano econômico, ressalta-se como a mudança de clima no mercado capitalista mundial fundou o chamado consenso das commodities, limitando as receitas e, portanto, a iniciativa produtiva e a capacidade redistributiva destes governos que se sustentavam no princípio do “crescimento do bolo e aumento da quantidade de fatias”. A conjuntura atual é caracterizada pela afirmação inevitável da lógica dos ciclos e das crises do capitalismo, algo que não foi considerado possivelmente por miopia ou porque se julgava fora das possibilidades de intervenção e atuação daqueles governos. Mas, ainda que se possa justificar desta maneira, esta avaliação não estava explícita no momento da criação e da defesa da perspectiva neodesenvolvimentista que assumiram e que, como seu antecedente histórico dos anos 40 e 50, terminou entrando em colapso com a persistência da dependência.

Por outro lado, no terreno político, há anos venho insistindo – junto de outros analistas – que os vícios inerentes à aposta, por parte dos diversos progressismos latino-americanos, na forma de condução governamentalista e centrada no Estado, em plena conformidade com a lógica sempre mutável do caudilhismo e do eleitoralismo, promovendo (em alguns casos mais do que em outros) a desmobilização ou re-subordinação dos atores e movimentos sociais que foram protagonistas do ciclo de lutas anti-neoliberais dos anos 90, com a desculpa de garantir a estabilidade do processo-projeto autoproclamado pós-neoliberal e proteger determinados grupos dirigentes ou organizações políticas. Os resultados recentes demonstram que confiou-se em demasia na capacidade do governo e da construção de maiorias eleitorais – não isentas de serem infladas artificialmente por práticas assistencialistas e clientelistas -, e subestimou-se a capacidade de reação das direitas da região.

E justamente, na ausência de um contrapeso para a esquerda, de movimentos populares vastos e combativos, as direitas latino-americanas que, em vários países (Argentina, Brasil, Bolívia, Equador e Venezuela em particular), foram nitidamente derrotadas em meados dos anos 2000, acabaram por se recuperar. Isso ocorreu tanto pelo inevitável desgaste próprio do exercício dos governos das forças progressistas como pelo fato de que os discursos e as práticas nacional-populares não conseguiram penetrar fundo o suficiente em termos sociais, e os valores e as crenças não foram modificadas substancialmente. O conservadorismo social, plantado e colhido no ciclo de instauração do neoliberalismo entre os anos 80 e 90, permaneceu por sua solidez intrínseca e porque alguns de seus princípios não foram questionados de frente; na verdade, mais de uma vez, foram utilizados instrumentalmente como, por exemplo, no caso do consumismo, que constituiu uma das chaves do êxito político-eleitoral de realização da classe média do projeto neodesenvolvimentista por mais de uma década. Assim, por trás de processos que pareceram exitosos em termos de construção de hegemonia no curto prazo, sobre a forma de votos, alianças e consenso entre classes, emergiu fatalmente, no terreno da disputa político-cultural, a questão hegemônica de fundo, na qual as sedimentações ideológicas de médio-longo prazo não deixaram de ter um visível tom neoliberal e, em uma camada ainda mais profunda, de conservadorismo histórico.

Em suma, para além das constantemente mutáveis responsabilidades políticas de uns e outros, as direitas encontraram as condições para seu ressurgimento nas profundidades estruturais, econômicas e culturais, das sociedades capitalistas latino-americanas. Assim, não será fácil combatê-las e, ao mesmo tempo, sua aparição, por lamentável e doloroso que seja, nos termos dos interesses imediatos das classes subalternas, impõe um saudável exercício de revisão de táticas e estratégias, uma reorganização de forças sociais e políticas e a reflexão sobre projetos e valores que servem de referência.

 

Massimo Modonesi é historiador e sociólogo; Professor da Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da UNAM.

Artigo publicado originalmente no site da Viento Sur. Tradução livre por Gustavo Andrade.

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