Friday, 20 de July de 2018

Brasil no Mundo

Contribuições para a Política Externa Brasileira

receba a newsletter

busca no site

ALAINET

Como o Brexit afeta a América Latina?

O Brexit não afeta diretamente a América Latina, mas supõe uma transformação global de impactos inevitáveis que não pode ser ignorada

Por Diego González e Julia Muriel Dominzain | 09/07/2016

Com a divulgação do resultado do Brexit, as consequências na América Latina não tardaram em se manifestar. O valor da bolsa no Brasil caiu, o peso argentino se desvalorizou, houve ajustes no México e os habitantes das Malvinas expressaram sua preocupação. Como então o Brexit afeta a América Latina?

Brexit

Reunião entre 27 estados membros da UE para definir futuro do bloco após saída do Reino Unido. Foto: European Council.

O inesperado resultado advindo do plebiscito (52% a 48%) fez ecoar a notícia pelo mundo e converteu o ocorrido em um fenômeno de dimensões equiparadas à queda do muro de Berlim. Trata-se de uma decisão da população mais velha da Inglaterra (dentre os jovens a opção de permanecer na União Européia mostrou-se vitoriosa – Remain) que repercute em todo o Reino Unido. Enquanto a segunda economia do bloco se retira, os jovens protestam e a Escócia e a Irlanda reconsideram sua independência. As conseqüências são, portanto, imprevisíveis e a economia global, por sua vez, não sabe até onde vai.

Uma primeira tentativa de aproximação analítica poderia sugerir que o Brexit não afeta em grande escala, ou ao menos diretamente a América Latina. Embora o intercâmbio comercial entre a região e o Reino Unido seja pouco significativo, político e econômico, a saída deste país da União Européia supõe uma transformação global de impactos inevitáveis que não pode ser, deste modo, ignorada.

Ademais, segundo o informe denominado “No more invisible”, quase 187 mil latinos vivem no Reino Unido.

Analisando a América Latina, a Colômbia é o país que mais tem cartas em jogo, 2,5% de suas exportações (principalmente carvão) tem como principal destino o Reino Unido. No caso brasileiro, se trata de 1,7% e para o México os dados registram 0,65%, segundo dados de 2014 lançados pelo Observatory of Economic Complexity.  Em meio tal descontrole econômico, o Secretário da Fazenda mexicano, Luis Videgaray, anunciou um ajuste de quase 1700 milhões de dólares e afirmou que para enfrentar uma situação com tais características se faz necessário “fortalecer os fundamentos econômicos”. Durante a madrugada da sexta, ao conhecer o triunfo do Brexit, a libra atingiu sua menor cotação histórica.

 

Integração econômica pós-Brexit
Aqueles que defendiam o Brexit prometiam que com a saída do país da União Européia novas portas se abririam para estabelecer novos tratados comerciais. O argumento pauta-se na afirmação de que sem a burocracia europeia, os acordos se fariam de forma mais direta, conforme surgissem as oportunidades.

Em 2000, a UE assinou acordos comerciais com o México, e em 2013 com Peru e Colômbia, estabelecendo convênios também com vários países da América Central. Diante da presente situação questiona-se: existirá de fato uma facilidade por parte do Reino Unido em promover negociações sozinho? Os acordos comerciais com os países latino-americanos, estabelecidos durante sua participação na UE, irão se manter?

De imediato o Reino Unido terá que negociar a data de sua saída e nesse momento estarão em discussão também os acordos comerciais com os países da América Latina. Os chanceleres dos 27 países da UE já pediram a Londres que uma vez certa sua saída, que esta seja feita de maneira rápida: “Não brinquem de gato e rato”, disse o ministro de Relações Exteriores de Luxemburgo, Jean Asselborn.

Argentina é um caso aparte, pois, o conflito econômico se cruza com o impasse político em torno das Malvinas. Em Buenos Aires o Mercado de Valores (Merval) caiu pelo menos 5% e o peso sofreu forte desvalorização ao longo da sexta-feira. O mercado argentino, como todos os outros, manifestou sua “preocupação”.

Segundo a publicação da agência de notícias governamental Télam, no final de maio e após visita do ministro de Comércio e Investimentos britânico, Mark Ian, a Argentina e o Reino Unido avaliavam oportunidades para o desenvolvimento de negócios na área de infraestrutura, tecnologia e energia. O clima que se vive na embaixada em Londres, após a ascensão de Macri, vai no mesmo sentido: muitos empresários não se aproximaram interessados em investir como faziam antes.

O resplandecente governo de Macri quis mostrar-se amistoso com a Inglaterra, especialmente com o centro financeiro de Londres. O atual cenário de incerteza não é, portanto, uma boa notícia para uma economia que estava fazendo a “tarefa suja necessária para ganhar a “confiança” e ser novamente aceito pelo mundo financeiro ”, como declarou, na mesma sexta, dia 24, o ministro da Fazenda, Prat Gay. O ministro refere-se ao “trabalho que ninguém quer”, ou seja, aumentar até quase 700% os serviços básicos, o pagamento aos Fundos Abutres e a forte desvalorização do peso, que antes das eleições estava a um pouco mais de 9 e já está agora em 15.

O tema Malvinas não vem tendo a prioridade que anteriormente ocupava na gestão de Cristina Kirchner, no entanto, volta à mesa depois do Brexit. Como em Gibraltar, onde quase 96% dos 30 mil habitantes votaram contra o Brexit, nas ilhas cresce a preocupação diante do novo panorama. As Ilhas Malvinas, com sua população de 3 mil pessoas, teme que o mercado europeu (que importa 73% dos produtos exportados pelas ilhas que a compõem) feche as portas para sua indústria, em especial a pesqueira responsável por 60% de seu PIB. Outra preocupação relaciona-se ao valor de um milhão de euros por ano da Europa que, com o Brexit, deixariam de receber.

Ainda que antes dos resultados advindos do plebiscito o secretário de Defesa Michael Fallon prometesse que a proteção militar britânica continuaria a existir nas ilhas, o temor é que Argentina adote uma atitude divergente daquela que está sendo tomada a respeito da soberania das ilhas. Sukey Cameron, representante das Malvinas ante o Reino Unido, disse em discurso no Parlamento em abril que: “Se o Reino Unido já não fosse membro da União Europeia, o apoio de um grande número dos estados membros seria menos seguro e poderia impulsionar a Argentina a ser mais agressiva em seu enfoque”.

Buenos Aires até agora mantém a estratégia de diálogo e não dá sinais no sentido da oportunidade, como havia feito o governo espanhol com relação a Gibraltar. Na mesma quinta da votação, a chanceler Susana Malcorra fez sua primeira intervenção ante o Comitê de Descolonização da ONU. Disse que as negociações serão de Estado para Estado e pediu que “o Reino Unido ponha fim à realização de atos unilaterais na área da controvérsia”. Refere-se à exploração de recursos naturais renováveis e não renováveis. Segundo definiu, o arquipélago é uma das 17 situações coloniais não resolvidas no mundo.

 

Mercosul e o TLC com a União Europeia
Se as mudanças de governo na Argentina e no Brasil parecem ter facilitado o caminho rumo ao TLC com o Mercosul, agora a saída do Reino Unido põe em xeque as negociações. O chanceler brasileiro, José Serra, está convencido de que o novo rumo supõe uma aproximação com a Aliança do Pacífico e a assinatura do Tratado de Livre Comércio com a União Europeia, que já vem sendo negociado há anos. “Se negociamos com a Inglaterra de forma separada, como faremos, de alguma maneira irá estimular a UE para que negocie conosco”, disse Serra ao jornal O Globo.

Em todo caso, o Brasil vive seu próprio terremoto, com um governo interino que não para de enfrentar tempestades e uma economia que não está para o desperdício e a volatilidade nos mercados internacionais provocados pelo Brexit é um fato a mais em uma crise política e econômica.

Em Buenos Aires, a Ministra de Relações Exteriores, Susana Malcorra, vai na mesma linha. Já que se firmou a adesão da Argentina como membro observador da Aliança do Pacífico e, ao mesmo tempo, a clara ruptura com o governo de Cristina Kirchner estimula com entusiasmo um acordo definitivo com a UE. “É indispensável que se assine no curto prazo”, havia dito a chanceler em abril.

Por isso, com os novos resultados sobre a mesa, expôs, em uma reunião de imprensa, sua preocupação, e disse: “O impacto da saída do Reino Unido está para se mostrar, mas ainda não temos os efeitos disso de forma clara. No tocante à relação entre UE e Mercosul, estou certa de que as coisas vão avançar e chegar a algo concreto”.

Dentro da União Europeia, o Reino Unido representava o setor mais liberal, o que menos travas estabelecia no trato da questão da abertura comercial com outros blocos. Diferentemente da França ou da Polônia – que, em defesa de seu agronegócio, olhavam com receio o Mercosul – o Reino Unido impulsionava acordos. O novo cenário muda claramente a correlação de forças no interior do bloco e também suas prioridades.

Não faltam setores em Brasília que, ao estilo brexit, questionam as supostas travas do Mercosul que dificultariam os acordos. O próprio presidente interino, Michel Temer, disse depois do Brexit: “Neste momento necessitamos rediscutir o Mercosul, não para eliminá-lo, mas sim para nos colocarmos em uma posição mais segura para buscar ampliar nossas relações com outros países”.

Por sua vez, tanto Montevidéu como Assunção sempre se mostraram favoráveis a abrir o bloco, o que para eles o novo cenário não é uma notícia festejável. O próprio Tabaré Vásquez reconheceu que o Brexit “pode complicar as negociações” do TLC entre os blocos.

 

Imigrantes da América Latina
Nas últimas semanas antes da votação, as enquetes revelaram que o tema da imigração era um dos primeiros tópicos que os britânicos assinalavam ao momento de mencionar os motivos de seu voto. A campanha midiática para fazer valer a crença de que os imigrantes levavam o dinheiro dos cidadãos funcionou. Muitos ingleses repetiam um dado: o de que existem 300 mil a mais de europeus trabalhando na Inglaterra do que ingleses que vão à União Europeia. Fato é que o dado está correto, porém falta ter em mente que, segundo o The Economi Journal, entre 2001 e 2011 os europeus no Reino Unido contribuíram 64% a mais ao fisco britânico do que receberam de benefícios estatais.

Malcorra mostrou preocupação pelo clima anti-imigrante refletido no voto pelo Brexit. “Parece a nós um sinal muito forte de que o mundo está passando por um momento difícil, de medos, de fechar-se, com alguma tendência xenofóbica, o que também se manifesta nos Estados Unidos”.

Reino Unido nunca fez parte do Espaço Shengen – a região a qual pertencem a maior parte dos estados europeus – e sempre manteve uma política de imigração independente da UE. Por isso, os imigrantes latinos não sofrerão com muitas mudanças nesse sentido. Ou seja, seguirá sendo restritivo no mesmo nível como era antes. Para os europeus sim se modificará o cenário, no qual até agora podiam ingressar e trabalhar sem problemas, mas que no atual contexto ficarão submetidos às novas regras.

O novo cenário seguramente será um dos grandes temas da próxima Cúpula de Chefes de Estado que está para ocorrer em meados de julho no Uruguai. O outro ponto terá relação com a situação na Venezuela, depois das idas e vindas na OEA e a promessa do presidente interino do Brasil de não apoiar, conforme estabelecido, Nicolás Maduro assumir a presidência pro tempore do Mercosul.

 

Publicado originalmente no site da ALAINET. Tradução livre por Camila de Assis.

registrado em:

VEJA TAMBÉM

grri@brasilnomundo.org.br