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Déjà-vu estadunidense espreita América Latina

Trump ou Clinton, as perspectivas para a paz e segurança na América Latina são pessimistas

Por Arturo Alejandro Muñoz | 22/07/2016

Donald Trump é um déjà-vu há muito conhecido, embora desta vez parece trazer ares e insolências renovados. Por sua parte, a senhora Clinton – que juntamente a Obama, mostrou-se inclinada às invasões armadas e assassinatos de líderes estrangeiros – esconde armas letais envoltas em papel colorido.

América Latina

Qualquer resultado das eleições nos EUA certamente favorecerá a já gigante indústria bélica do país. Foto: Justin Sullivan—Getty Images (R); John Lamparski—Getty Images.

 

A luta eleitoral nos Estados Unidos entra na fase final restando muito pouco para definir os nomes dos candidatos à Casa Branca pelos próximos quatro anos. Hillary Clinton e Donald Trump são os principais aspirantes para ocupar o salão oval. Para a América Latina, e para 80% das nações que povoam o planeta, nenhum resulta ser garantia de tranquilidade e paz.

Isto foi demonstrado em mais de uma ocasião por Hillary Clinton durante o tempo com a qual acompanhou Barack Obama na casa do governo estadunidense. Em sua conta podemos assinalar sua participação nos ataques no Iraque, Líbia e Síria, no seu inquestionável apoio ao ISIS, assim como na perseguição e assassinato de Osama Bin Laden, aquele antigo aliado de Washington quando a Guerra Fria ainda existia.

De Donald Trump tampouco há muito o que descobrir, haja vista sua clara oposição anti-imigratória, nacionalista ao ponto do nazismo, profundamente neoliberal e racista ao extremo. Em certo momento, divertiu-se a respeito da construção de um muro de centenas de quilômetros na extensa fronteira com o México, não só copiando a vergonha do muro de Berlim construído pelos soviéticos na Alemanha ocupada por capitalistas e comunistas no século passado, mas também avalizando o governo israelense no muro ignominioso utilizado hoje – tal qual um gueto étnico e político – para isolar a nação palestina tanto de Tel-Aviv quanto de Jerusalém, como do mundo todo.

Ambos, Clinton e Trump, não rechaçam as técnicas de tortura aplicadas por militares estadunidenses em prisoneiros nos cárceres extra-fronteiriços, como Guantánamo em Cuba, Roraima no Brasil ou Ancara na Turquia. O próprio Trump disse a seus eleitores em Ohio: “O que pensa do waterboarding (afogamento com água, comumente conhecido como ‘o submarino’)?”; “eu gosto muito. Não creio que seja suficientemente duro”. Logo agregou: “a restrição deste método coloca o país como débil, estúpido e sem liderança, pois hoje os Estados Unidos são um país muito debilitado diante do terrorismo”.

Para a imprensa, Trump usou uma frase que exemplifica de maneira eloquente sua concepção de “liderança e paz”, caso alcance o posto da presidência dos Estados Unidos da América pela primeira vez: “Fogo combate-se com fogo (…) vivemos em tempos medievais. Temos que pará-lo. Temos de ser fortes. Temos que lutar tão brutalmente e violentamente porque enfrentamos gente violenta e brutal”, disse sobre o ISIS (em que pese o fato de que ninguém, nação nem grupo, invadiu o território americano nem bombardeou civis em cidades indefesas).

Tudo o que precede é uma aberta ameaça aos regimes que Washington (Trump, para ser exato) considere inimigo, como também bastaria catalogá-los de “perigosos” para que todo potencial bélico estadunidense caia sobre eles, como início à depredação de seus recursos naturais.

São estes motivos – além dos econômicos – que François Hollande, presidente francês, anunciou que a eleição de Trump seria “perigosa” e “complicaria as relações entre Europa e Estados Unidos”, assinalando ainda que “quem afirma que Donald Trump não pode ser presidente dos Estados Unidos são os mesmos que asseguravam que o Brexit nunca seria aprovado”.

O mandatário francês apelou a “tomar consciência” que os EUA “já não querem ser os soldados do mundo”, e que seu horizonte está mais no Pacífico e na Ásia do que na Europa.

Talvez não esteja tão equivocado o presidente da França, pois não seria estranho que Trump pretenda privilegiar um desenvolvimento interno (sem abandonar, por certo, seus interesses mais importantes no exterior), compreendido como o fechamento de fronteiras e principalmente como um ataque violento contra os territórios que contem com os recursos naturais cuja economia norte-americana necessita prioritariamente.

Por fim, o que parece avizinhar-se é algo do tipo “tomo tudo e não dou nada”, uma fantasia em absoluto, já que o candidato republicano colocou em dúvida a validez e utilidade de alguns Tratados de Livre Comércio com países que o establishment, sob as rédeas do partido democrata, acreditou ser oportuno firmar com o intento de limpar e maquiar sua cara para o mundo. Trump atuaria diferente, embora igualmente eficaz. “Eu quero, eu preciso? Pois bem, eu tomo à força …por bem ou por mal”.

Não seria tudo isso um déjà-vu para os moradores do quintal dos EUA, que o Congresso, o Pentágono e a Casa Branca conhecem pelo nome de América Latina? Monroe, Eisenhower, Kennedy, Nixon e Bush junior (dentre muitos outros mandatários) comandaram administrações que apertaram fortemente a corda para asfixiar tentativas de independência econômica e política das nações localizadas ao sul do Rio Bravo.

Os olhos de empresários e políticos conservadores norte-americanos já não estão postos em regiões como a nossa, mas na Ásia, onde alça – desde a perspectiva da concorrência financeira – os novos gigantes continentais e insulares que controlam uma nada insignificante porcentagem da economia mundial.

Rússia euro-asiática, China, Camboja, Vietnã e o arquipélago asiático (Filipinas, Borneo, Sumatra, etc.) são o alvo de Trump e seus sócios. Da Ásia Menor ao norte da África ficará encarregado o melhor (e único) aliado com que conta a ultra-direita estadunidense naquela zona do planeta: Israel.

Da América Latina – e do Chile em particular – cuidarão os megaempresários e seus sipaios políticos, moldados e alimentados diretamente por Washington.

Definitivamente, Donald Trump já não é o simpático personagem loiro que apareceu numa jocosa cena do filme “Esqueceram de mim 2”, no qual o candidato presidencial – num lobby do Hotel Plaza na cidade dos arranha-céus – com passos rápidos cruzou o saguão após cumprimentar um pirralho Kevin McAllister, interpretado por Macaulay Culkin.

Já não é um personagem cinematográfico … é uma ameaça potencial para América Latina, uma vez que deixou claro que seu país, EUA, deve manter – oxalá incrementar, afirmou – sua capacidade de fabricação de armamentos “para não ser fraco com o terrorismo”.

Pois bem, se a indústria armamentista dos americanos já é gigantesca, a alternativa é ir à guerra ou deter o rearmamento militar. A primeira opção é, indubitavelmente, o desejado pelos “falcões” e ultraconservadores que apoiam Trump. Parar o rearmamento implicaria aos EUA encarar, por fim, sua verdadeira capacidade econômica, viver de seu próprio esforço e do que proporciona seu território, sem invasões nem participações em golpes de Estado nos países que lutam e apostam em sua independência política.

Isto, Clinton não fará … e menos ainda Donald ‘esqueceram de mim’ Trump. Seja qual for o próximo presidente dos Estados Unidos, é iminente uma obscura perspectiva para os latino-americanos. Pior do que a atual realidade, em que governantes como Mauricio Macri optam por abrir as portas de seu país a uma invasão “negociada”, entregando a Washington autorização para estabelecer duas ou três bases militares em terras patagônicas.

Chile já o fez (Concón é um exemplo), seguindo o entreguismo de Álvaro Uribe na Colômbia e dos ricos proprietários de terras de Assunção no Paraguai. Como é possível observar, Donald Trump é um velho déjà-vu, embora desta vez parece trazer ares e insolências renovados. Por sua parte, a senhora Clinton – que juntamente a Obama, mostrou-se inclinada às invasões armadas e assassinatos de líderes estrangeiros – esconde armas letais envoltas em papel colorido. Recordando a frase de Homero na Ilíada, dita por um general troiano: “timeo danaos et donna ferentes”(tema os gregos mesmo que tragam presentes).

Sem sombra de dúvida, países e subcontinentes como o nosso estão totalmente indefesos face a qualquer avanço predatório do império do norte. E Trump quer avançar. A dúvida consiste se a ambiciosa e belicista Hillary Clinton, com outros meios e subterfúgios, deseja algo similar. De ser assim…

 

Artigo publicado originalmente no site da ALAINET. Tradução livre por Giovane Gomes.

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