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Golpe de Estado no Brasil e retrocesso de Washington na América Latina

Ou os motivos de Serra ser o tipo de pessoa que Washington tão desesperadamente gostaria de ver a cargo da política exterior do Brasil

Por Mark Weisbrot | 09/06/2016

Está claro que o Poder Executivo do governo dos Estados Unidos favorece o golpe de Estado em curso no Brasil, apesar de haver tido cuidado ao evitar qualquer respaldo explícito. A primeira amostra foi o encontro entre Tom Shannon, o funcionário número 3 do Departamento de Estado dos EUA, e quem sem dúvidas está encarregado de manejar esta situação, junto ao senador Aloysio Nunes, um dos líderes do processo político contra a presidenta Dilma Rousseff no Senado brasileiro, dia 20 de abril. Mediante a celebração desta reunião apenas três dias após a Câmara ter votado a favor da destituição da presidenta Rousseff, Shannon envia um sinal aos governos e diplomatas em toda a região, e ao mundo, de que para Washington o processo é mais que aceitável. Nunes lhe devolveu o favor ao liderar um esforço (sendo o presidente do Comitê de Relações Exteriores no Senado) para suspender a Venezuela do Mercosul.

Embora não tenha dado respaldo explícito, o governo dos EUA manda clara mensagem de apoio ao golpe no Brasil quando recebe o senador Aloysio Nunes logo após a votação na Câmara que resultou no afastamento da presidente Dilma Rousseff. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado.

Embora não tenha dado respaldo explícito, o governo dos EUA manda clara mensagem de apoio ao golpe no Brasil quando recebe o senador Aloysio Nunes logo após a votação na Câmara que resultou no afastamento da presidente Dilma Rousseff. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado.

Muito está em jogo para as principais instituições de política exterior dos EUA, as quais incluem as 17 agências de inteligência, o Departamento de Estado, o Pentágono, a Casa Branca, o Conselho de Segurança Nacional, junto aos comitês de política exterior do Senado e da Câmara. Uma enorme mudança geopolítica foi levada a cabo nos últimos 15 anos, nos quais a esquerda latino-americana passou de não governar nenhum país a liderar a maioria dos países da região. Por diversos motivos históricos, a esquerda na América Latina tende a favorecer a independência nacional e a solidariedade internacional, e portanto está menos disposta a entrar debaixo da asa da política exterior estadunidense. Recordo a primeira vez que vi Lula da Silva. Foi em Porto Alegre, em 2002. Ele falava a uma multidão do Fórum Social Mundial, sob um enorme cartaz que dizia “Diga não à guerra imperialista no Iraque”.

Lula é um bom diplomata, e manteve uma boa relação pessoal com George W. Bush durante suas presidências contíguas. Contudo, transformou a política exterior brasileira, e contribuiu para o desenvolvimento regional de uma política exterior independente. Em 2005, em Mar del Plata, Argentina, os governos de esquerda enterraram a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) patrocinada pelos Estados Unidos, pondo fim, desta maneira, ao sonho estadunidense de um acordo comercial hemisférico baseado nas regras desenhadas em Washington. Brasil, sob o Partido dos Trabalhadores (PT), também respaldou firmemente a Venezuela contra as repetidas tentativas por parte dos EUA de isolar, desestabilizar, e inclusive derrotar seu governo. A primeira viagem ao exterior de Lula depois de sua reeleição em 2006 foi à Venezuela, onde apoiou o presidente Hugo Chávez em sua própria campanha de reeleição. O governo do PT também apoiou os esforços regionais para anular o golpe militar respaldado pelos EUA em Honduras, e se opôs com êxito à ampliação do acesso dos Estados Unidos às bases militares na Colômbia em 2009. E foram muitos na classe dirigente da política exterior estadunidense (incluindo a então secretária de Estado, Hillary Clinton) que não apreciaram o papel do governo brasileiro em ajudar a organizar um acordo de troca de combustível nuclear destinado a resolver o conflito com o Irã em 2010, apesar de que na realidade tenha sido feito por sugestão de Washington.

A Guerra Fria de Washington nunca culminou na América Latina, e agora vê sua oportunidade para um “retrocesso”. Brasil é um grande prêmio, como evidencia o novo chanceler do governo interino, José Serra, quem concorreu sem êxito à presidência, primeiro contra Lula (2002) e depois contra Dilma (2010). Espera-se que utilizará sua posição atual – se é que o atual governo sobrevive – como uma espécie de trampolim para uma terceira tentativa à presidência.

Em sua campanha presidencial de 2010, Serra se esforçou sobremaneira para tratar de demonstrar sua lealdade a Washington. Acusou o governo boliviano de Evo Morales de ser cúmplice do narcotráfico e atacou o governo Lula por suas tentativas de resolver a disputa nuclear com o Irã. Criticou-os, igualmente, por unirem-se ao resto da região e em não reconhecer o governo de Honduras após o golpe, e também fez campanha contra a Venezuela.

Serra é o tipo de pessoa que Washington tão desesperadamente gostaria de ver a cargo da política exterior do Brasil. Ainda que as corporações obviamente sejam grandes atores na política exterior dos EUA, e que se encarreguem textualmente de fazer a redação de grande parte dos acordos comerciais como o Nafta e o TPP, o princípio orientador da política exterior de Washington não é o benefício a curto prazo, mas o poder. As maiores decisões, até chegar à Casa Branca, preocupam-se antes de tudo por conseguir que os demais países se alinhem à política exterior estadunidense. Não apoiaram a consolidação do golpe militar em Honduras porque o presidente hondurenho, Manuel Zelaya, havia aumentado o salário mínimo, mas sim porque encabeçava um governo vulnerável de esquerda que tomava parte da mesma aliança ampla que incluía o Brasil nos governos do PT. Estes governos se apoiavam mutuamente e mudaram as normas da região, de maneira tal que, inclusive os governos que não eram de esquerda como o da Colômbia, de Juan Manuel Santos, em boa medida seguiam a pauta dos demais.

É isso o que Washington quer mudar neste momento, e existe muita emoção neste paradeiro do Norte quanto às perspectivas de “uma nova ordem regional”, que na realidade é tão somente a velha ordem regional do século XX. Não terá êxito – nem sequer se nos guiarmos pelos seus próprios critérios de medi-lo – não mais do que logrou George W. Bush com sua visão de uma remodelação do Oriente Médio ao invadir o Iraque. No entanto, pode ajudar a causar muito estrago na sua tentativa.

 

Publicado originalmente no site do Últimas Notícias. Tradução livre da Equipe BnM.

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