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#NeoSocialDemocracia

Os desafios vividos por toda região sul do continente americano abrem espaço para paradigmas novos que, paradoxalmente, fazem ressurgir velhos modos de condução política e econômica

Por Alfredo Serrano Mancilla | 06/09/2016

Não é novo. O processo de social-democratizar qualquer processo revolucionário tem infinitos precedentes na história política latino-americana. Desde a Aliança para o Progresso (iniciada por Kennedy) até os primeiros anos da época Clinton. Em anos mais recentes, por exemplo, a terceira via latino-americana foi o termo utilizado para que o Brasil de Lula caminhasse sempre pelos trilhos do centro.

neosocialdemocracia

De acordo com Mancilla, a terceira via latino-americana apresenta uma das faces do neoliberalismo. Imagem: reprodução.

Nos dias de hoje, em tempos de contração econômica mundial, Equador e Bolívia estão na linha de frente, sendo tratados com muito carinho para que se deixem levar pelos princípios socialdemocratas. Não conseguiram (por enquanto), mas seguem tentando. Fazem um acordo comercial aqui e um investimento estrangeiro ali. A economia aperta e a ajuda externa aparece como a grande tentação salvadora.

E agora também tentam surpreendentemente com a Venezuela. Se não por mal, que seja por bem. Diante do momento de emergência econômica, alguns setores puseram-se a trabalhar para que o chavismo tenda a uma saída neosocialdemocrata. A desculpa, a de sempre: o pacto necessário para dar estabilidade e governança econômica. A estratégia, também a habitual: afirma-se que tudo proveniente do setor público está mal, e assim argumenta-se que todas as grandes decisões econômicas devem passar para as mãos do grande capital privado. Se há falhas no sistema de preços justos, então a solução é que duas empresas privadas marquem os preços como bem quiserem. Se o sistema cambial tem debilidades, então a solução é que o DolarToday seja legal. Assim é como a neosocialdemocracia pretende impor seu sentido econômico comum para dar estabilidade ante a atual situação econômica adversa.

A pergunta que devemos fazer é que tipo de estabilidade econômica nós queremos como resposta às dificuldades. Uma coisa é a estabilidade que exclui as maiorias, e outra bem distinta é aquela que inclui, que não deixa ninguém de fora. Temos aqui a verdadeira discussão por trás deste emergente consenso de ideias econômicas. Estabilidade macroeconômica com mal-estar microeconômico? Como no Peru, Colômbia, México ou como acontece agora com a Argentina. De nada serve alcançar o equilíbrio macroeconômico sem gente dentro, sem povo. A chave é chegar à meta mas com o maior número possível de pessoas.

A socialdemocracia, nas últimas décadas, vem autopromovendo-se com cara amigável. Tentando dissimular que pertence ao mesmo sistema hegemônico que provocou um importantíssimo desastre econômico em escala global. Procura utilizar como carta de apresentação o que foi no passado, sem querer responsabilizar-se pelo presente. No entanto, é preciso não confundir o que foi a velha socialdemocracia com esta neosocialdemocracia, coabitante de uma casa neoliberal dominante. Este novo projeto tem por características constituir-se a partir de um pacto desigual com amizades perigosas; por uma soberania subordinada ao padrão de acumulação global do capital; por políticas públicas de bem-estar social condicionadas à taxa de lucro de uns poucos grandes empresários. Esta é a corrente que aparece camuflada como nova, mas que se assemelha demasiadamente à de sempre, ao modelo neoliberal.

Muitos dos processos de mudança na América Latina se enfrentam, indubitavelmente, ante seu próprio ponto de clivagem para sortear contradições internas e para afrontar situações externas adversas. Nenhuma identidade política pode continuar paralisada face a tantas mudanças interna e externamente. Abre-se assim muitas vias para sua ressignificação e interpretação à frente. E diante de um amplo leque de possibilidades por onde transitar, ser domesticado pela neosocialdemocracia é uma opção que alguns apostam com muito ímpeto. Seu êxito, em grande medida, dependerá do surgimento de outras alternativas que seduzam e convençam mais que o plano de marketing da neosocialdemocracia. Caso isso não suceda, então, começará mais cedo o tic tac dos processos de mudança da região. Esperemos que não.

 

Alfredo Serrano Mancilla é doutor em Economia e diretor do Centro Estratégico Latino-americano de Geopolítica (Celag).

Artigo publicado no site da Celag. Tradução livre por Giovane Gomes.

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