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O novo Plano Condor neoliberal

As mudanças ocorridas na América Latina vão além das crises dos governos progressistas. A influência dos Estados Unidos mostra sinais de retorno, não mais pela via armada, mas pela comunicação

Por Manuel E. Yepe | 28/07/2016

Assim como nas décadas de 1970 e 1980 teve lugar um Plano Condor – que era uma operação de coordenação criminal e apoio mútuo entre as ditaduras do Cone Sul do continente americano sob supervisão da CIA para assassinar, espiar, vigilar, sequestrar, torturar e transportar pessoas ilegalmente entre os países, relegando fronteiras, soberanias e direitos nacionais – hoje América Latina sofre um novo “Plano Condor” para reimplantar o neoliberalismo. Aquele Plano Condor foi uma das diversas operações realizadas dentre as ditaduras militares no Cone Sul americano para aplicar a teoria de Segurança Nacional dos Estados Unidos e deixar os povos presos a regimes terroristas de Estado, alegadamente para combater o perigo do comunismo.

A grande mídia na América Latina desempenha papel fundamental para consolidar posições políticas através do bombardeio de notícias de alto impacto contra os governos populares da região. Imagem: Latuff.

A grande mídia na América Latina desempenha papel fundamental para consolidar posições políticas através do bombardeio de notícias de alto impacto contra os governos populares da região. Imagem: Latuff.

 

Participaram naquela Operação Condor, com maior ou menor grau de envolvimento, os regimes ditatoriais do Cone Sul da América aprovados por Washington: Chile, Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai, Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador e, claro, os Estados Unidos como chefe da banda. “Hoje a América Latina vive um plano golpista não convencional contra os governos progressistas. Um novo Plano Condor para implantar o neoliberalismo: já não mediante ditaduras militares, mas através do poder combinado dos grandes veículos de comunicação, os empresariados locais, os partidos de direita e os governos das grandes potências”, segundo denunciou a emissora multinacional latino-americana TeleSur.

Entrevistado por TeleSur, o analista e jornalista Miguel Jaime identificou a nova operação como de baixo perfil, em comparação aos golpes de Estados promovidos pelo Ocidente no Oriente Médio – caracterizados pela implantação de conflitos com emprego de armamento bélico próprio de guerras. Na América Latina, o que vem ocorrendo são julgamentos políticos como o aprovado contra a mandatária do Brasil, Dilma Rousseff, e como o que tenta-se impor à ex-presidenta da Argentina, Cristina Fernández contra o fantasma de sua liderança.

Por sua parte, o pesquisador Adalberto Santana disse que os Estados Unidos pretendem, com sua atual versão de Plano Condor, desmontar os governos populares, visando manter ou recuperar seu domínio sobre os processos políticos para resguardar recursos petrolíferos, ambientais e econômicos que ambicionam na região. Buscam criar desconfiança na população, frear programas sociais dos governos populares e acabar com a imagem das lideranças revolucionárias da região, empregando a mídia para gerar o rechaço cidadão.

Embora a estratégia básica nesta nova versão do Plano Condor não exclua a violência armada nem atentados contra dirigentes populares para eliminar lideranças de movimentos sociais e partidos de esquerda, e semear desmoralização e medo nas bases (lembrar dos assassinatos da líder indígena Berta Cáceres em Honduras e do deputado Robert Serra na Venezuela), as características que diferenciam este modelo golpista são o ataque direto à economia e nos aparatos produtivos dos países escolhidos.

Objetivo essencial destas ações – para além de sua expressão terrorista – é afetar as fontes de financiamento dos programas sociais que são a base de apoio popular dos governos progressistas. Daí a ênfase, por exemplo, no desabastecimento de produtos básicos de consumo. O financiamento de Washington – e algum outro aliado seu – a partidos e ONGs opositoras também é importante nesta guerra não convencional. Mediante o emprego de recursos para promover a subversão, com métodos especialmente desenhados, lograram a inclusão de uma parte da juventude de classe média como ponta de lança dos protestos direitistas.

Organizações não oficiais estadunidenses como a USAID e a NED, apontadas como promotoras do golpe de Estado de 2002 em Caracas, foram encarregadas de organizar a violência nas ruas com o emprego de jovens que utilizam e pagam. A mídia, depois, se encarrega de converter os atos de violência das ruas em “sintomas de descontentamento popular”, “sinal de caos econômico” ou “prova de repressão policial”.

Certamente, se algum ator sobressai deste novo Plano Condor neoliberal para América Latina, é o poder midiático. Constantes campanhas informativas que criminalizam governos de esquerda e uma torrente de notícias de alto impacto tem o propósito de influenciar determinados setores da população para provocar temor, cansaço e, finalmente, seu posicionamento político.

A mídia, hoje, no atual Plano Condor neoliberal desenhado por Washington, faz o papel dos militares golpistas da América Latina nos anos 70 e 80 do século XX.

 

Artigo publicado originalmente no site da ALAINET. Tradução livre de Giovane Gomes.

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