tera, 22 de agosto de 2017

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O que há de novo, Donald?

Quais poderão ser os impactos da política exterior de Trump para a América Latina?

Por Alejandro Frenkel | 21/11/2016

Existem quatro grandes tradições de política exterior nos Estados Unidos. Cada uma delas está associada com proeminentes figuras históricas da política norte-americana. Assim, a tradição jeffersoniana deve sua denominação ao ex-presidente (1801-1809) Thomas Jefferson; a hamiltoniana, ao ex-secretário do tesouro Alexander Hamilton; a wilsoniana, a quem ocupou a Casa Branca durante a Primeira Guerra Mundial, Woodrow Wilson; e a corrente jacksoniana seria assim batizada pela política externa do ex-presidente (1829 – 1837) Andrew Jackson. Em linhas gerais, estas tradições se estruturam sobre determinadas linhas e ideias-força: qual é o lugar que os Estados Unidos ocupam no mundo; mais intervencionismo ou mais isolacionismo; maior peso dos fatores idealistas ou dos materiais; ou o predomínio de uma visão universalista ou mais particularista.

Trump

Imagem: reprodução.

 

A tradição jeffersoniana, por exemplo, baseia-se na ideia da excepcionalidade dos Estados Unidos no sistema internacional, tanto por seus valores republicanos como por não estarem rodeados de vizinhos em permanente conflito (cabe destacar que durante a presidência de Jefferson, na Europa primavam as monarquias e o balanço de poder). Fundamentada nesta singularidade, a política exterior caracteriza-se por uma resistência a imiscuir-se em assuntos externos e em regiões para além do seu entorno imediato. Especialmente se o fornecimento de um aparato militar e diplomático que intervenha permanentemente no resto do mundo implica que o Estado federal aumente os impostos e as ingerências sobre os direitos individuais dos cidadãos.

A tradição iniciada por Woodrow Wilson, por outro lado, parte da ideia de que os Estados Unidos devem sim desempenhar um papel ativo no mundo, incentivado por e expandindo determinados princípios considerados universais, como a liberdade, a democracia e o livre mercado. No entanto, não deve fazê-lo só, mas em companhia do restante das nações através da criação de instituições multilaterais. A corrente hamiltoniana compartilha com a wilsoniana alguns preceitos, como a necessidade de uma intervenção ativa do país do norte no resto do planeta e a criação de instituições coletivas de caráter internacional. Não obstante, o foco neste caso não está posto em expandir determinados valores e ideias, mas principalmente em consolidar o poderio econômico dos Estados Unidos. Neste sentido, a democracia é concebida mais como um meio do que como um fim e a capacidade militar é menos importante que a supremacia comercial e econômica.

A corrente jacksoniana, por fim, baseia-se em uma retórica mais nacionalista, que invoca a autossuficiência americana em relação ao entorno internacional e, da mesma forma que a corrente jeffersoniana, desconfia da ingerência do Estado e elites sobre o âmbito individual dos cidadãos. Neste sentido, mesmo que a intervenção permanente dos Estados Unidos no resto do mundo não é considerada necessária, o país deve manter-se forte e preparado – especialmente em termos militares – no caso de precisar responder a uma agressão.

Na maior parte dos casos, as políticas exteriores dos distintos governos norte-americanos combinaram características e ideias de distintas tradições. Para citar alguns exemplos recentes, George W. Bush articulou uma visão jacksoniana – expressada em seu desdenho pelo multilateralismo e pela energética reação belicista aos ataques de 11 de Setembro – com a ideia wilsoniana de expandir a democracia como princípio universal. Nos governos de Bill Clinton e Barack Obama, por exemplo, é possível encontrar o espírito wilsoniano de promover a democracia global e as instituições multilaterais juntamente com a ideia hamiltoniana de priorizar o fator econômico, promovendo o livre comércio (ainda assim, nenhum deles diminuiria a relevância do poder militar como meio para assegurar os interesses norte-americanos).

Disto isto, cabe perguntar se o recentemente eleito presidente Donald J. Trump responde a algumas destas tradições de política exterior norte-americana e, em caso positivo, em qual delas se enquadraria melhor. A priori é difícil lograr uma classificação certeira. Por duas razões. Em primeiro lugar, a óbvia, porque a administração de Trump não começou. Ainda que durante a campanha eleitoral as definições de política exterior tenham sido uma constante – ainda mais nesta eleição, na qual o protagonismo que os temas internacionais obtiveram é comparável apenas com as épocas mais quentes da Guerra Fria – na política estadunidense também é comum encontrar uma distância entre as promessas e as realidades (o governo de Obama é um bom exemplo). Vinculado a este último, o segundo fator que nubla o panorama é o ecleticismo das propostas do magnata imobiliário, tanto durante a primária republicana como na etapa da contenda direta com Hillary Clinton. Para citar um exemplo, Trump iniciou sua campanha denunciando os lobbies do famoso complexo industrial-militar, apenas para logo depois afirmar que os Estados Unidos devem continuar a possuir o exército mais poderoso do mundo.

Não obstante, para tentar arriscar uma resposta, se tivéssemos que encaixar Trump, a tradição jacksoniana seria a que provavelmente enquadraria melhor as suas ideias de política exterior. De fato, Trump tem postulado a necessidade de priorizar o mercado interno norte-americano e desarticular os acordos de livre comércio, como o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TCLAN) ou o Tratado Transpacífico de Associação Econômica (TPP, na sua sigla em inglês), assim como deixar de lado o envolvimento em conflitos internacionais “desnecessários”. O slogan America First, tão mencionado durante a sua campanha, relaciona-se com a ideia dos Estados Unidos menos intervencionista no político-militar e mais protecionista no econômico. Nesta linha, o agora eleito presidente defendeu em um comício de campanha que sob seu governo “vamos parar de construir democracias estrangeiras, derrubar regimes e intervir imprudentemente em situações nas quais não temos o direito de fazê-lo”. Suas críticas à invasão no Iraque e à permanente ingerência norte-americana no Oriente Médio também são exemplos da atitude refratária a uma política exterior intervencionista e universalista. “A guerra do Iraque iniciou a desestabilização do Oriente Médio, deu início ao Estado Islâmico, ao da Líbia, ao da Síria”, declarou Trump.

Ora, contrariamente a uma ideia de onipresença em todo o orbe, as posturas isolacionistas partem de uma sensação de debilidade por parte dos Estados Unidos. O diagnóstico geral é que Washington não possui a capacidade de projetar seu poder para todas as áreas do planeta com igual intensidade; ou que o custo de fazê-lo é demasiado alto a médio e longo prazo. “Não importa de qual país estejamos falando, qualquer um ganharia dos Estados Unidos”, sentenciou Trump em 2015. A situação desfavorável demanda, inexoravelmente, um reordenamento das prioridades e dos focos de ação. As declarações. As declarações de Trump dirigidas a retirar seu apoio à OTAN – e, por extensão, à Europa – têm como pano de fundo esta sensação de inferioridade que, neste caso, traduz-se em uma iniciativa que remonta às épocas da Guerra Fria: deixar de tutelar a segurança dos países que podem garanti-la sozinhos e concentrar-se nos inimigos mais imediatos. Na cosmovisão trumpiana, os inimigos são fundamentalmente o Estado Islâmico e a China. A diferença é que enquanto o primeiro é combatido pela força, com Pequim a disputa é principalmente econômica e comercial.

Por sua vez, esta sensação de declive é acompanhada de uma retórica de restabelecimento de um poderio perdido. Daí a ideia mítica do “Make America Great Again”. Uma ideia que, vale dizer, não é nova, esteve presente em várias passagens da era bipolar. Sobretudo naqueles momentos que, segundo se cria, a balança inclinava a favor da União Soviética. Assim foi em meados da década de 1960, quando John F. Kennedy lançou sua candidatura presidencial sob o lema “Let’s make America moving again” ou no início dos anos oitenta, quando Ronald Reagan utilizou o slogan “It’s morning in America again” em sua campanha para reeleição.

O particular desta condicionante de dever selecionar as frentes de batalha é que poderia levar Washington a impulsionar consensos maiores com outras potências. Neste caso não seria necessariamente sob esquemas de instituições multilaterais, mas produto de um acordo entre os “grandes”. Não por acaso, Trump defende quase sem contradições a necessidade de sentar-se à mesa com Vladimir Putin para buscar consenso sobre uma política comum que ajude a recompor o tabuleiro no Oriente Médio. Uma aproximação entre as duas maiores potências militares do mundo certamente seria uma novidade e até poderia desencadear o que o politólogo Julio Burdman denominou “uma pax russo-norte-americana”.

Contudo, ao passo que um eventual recuo estadunidense anuncia expectativas também há que ter em conta os potenciais riscos. De fato, a sensação de debilidade pode dar lugar, sob circunstâncias excepcionais, a uma reação desmedida com o objetivo de restabelecer a fortaleza e a supremacia norte-americana. O ideal jacksoniano pode ser retratado na metáfora de um cowboy de pavio curto que prefere permanecer no seu canto, desde que não se metam com ele. Agora vejamos, no caso em que isso aconteça, a resposta será por meio da força e, se necessário, sem a ajuda de ninguém. O governo de George W. Bush talvez seja o melhor exemplo: sua atitude isolacionista e a crítica ao multilateralismo traduziu-se, após os atentados às Torres Gêmeas, na implementação da doutrina de guerra preventiva e na moralização absolutista da política exterior entre “bons” e “maus”.

No caso particular da América Latina, a principal incerteza que a nova gestão republicana desperta está na concretude e nos alcances que algumas iniciativas enfatizadas por Trump durante a campanha possam ter. Além das polêmicas medidas anti-imigratórias, uma eventual implementação de políticas protecionistas em matéria econômica afetaria significativamente a estratégia externa da maioria dos países da região, cujo modelo de inserção internacional é fundamentado na atração de capitais internacionais e na liberalização do comércio. Se na década anterior foram os países latino-americanos que professaram uma alternativa ao paradigma globalista liberal – baseado no livre comércio, na governança transnacional e nas cadeias globais de valor – o cenário atual parece ter sido invertido: os pilares da ordem liberal estão sendo desmontados desde os centros de poder ocidental e são os países latino-americanos que reivindicam os benefícios da globalização e o receituário de políticas neoliberais. Este tabuleiro invertido obrigará muitos governos da região a recalcular sua política exterior.

Da mesma maneira, se as tensões entre Washington e Moscou arrefecem, e os Estados Unidos redirecionam a sua mira exclusivamente para a China, as disputas entre as duas maiores potências econômicas podem recrudescer em outras partes do globo, especialmente sobre a América Latina. Por exemplo, o aparente knock-out ao TPP que sobreveio após a vitória de Trump pode encorajar a China a incentivar um mega-acordo de livre comércio com características similares. Na realidade, o gigante asiático já conta com tratados de livre comércio com Chile e Peru, e outros países, como a Argentina e o Uruguai, manifestaram seu desejo de seguir a mesma via, seja no marco do Mercosul ou de forma bilateral.

Em terceiro lugar, se Trump cumprir sua promessa de renegociar o TLCAN, é de se esperar que isso repercuta sobre o cenário regional ao sul do Rio Bravo. Com efeito, se os Estados Unidos barram as importações, podem fazer com que o México reoriente a sua política externa em matéria comercial e econômica e tente ocupar espaços no mercado latino-americano. Este seria um retrocesso para as aspirações de um Brasil combalido, que durante a década passada dedicou-se a construir uma proto-hegemonia regional em torno do espaço sul-americano. Em um novo cenário, o México poderia aspirar a ocupar, ao menos em parte, o lugar do Brasil como gigante regional, sobretudo no que tange à internacionalização de suas empresas mais competitivas. Se, ademais, o México começa ter mais presença na América Latina, é factível que o regionalismo livre cambista e mono comercial atualmente encarnado na Aliança do Pacífico ganhe mais espaço ainda entre os países latino-americanos.

Por último, é preciso seguir de perto os movimentos do novo governo no que diz respeito ao acordo sobre mudança climática firmado recentemente em Paris, em geral muito criticado pelo Partido Republicano. Um retrocesso nesta matéria afetaria especialmente os países da América Central e Caribe, tradicionalmente flagelados por desastres naturais.

Em suma, em um ano no qual os grandes fatos internacionais parecem estar atravessados por uma nostalgia de voltar a um passado idealizado, se não são produzidos acontecimentos que possam afetar significativamente o “orgulho americano”, a chegada de Trump pode resultar não apenas em uma boa notícia os saudosos de um sistema internacional mais estável, mas também para aqueles que condenam o intervencionismo norte-americano nos países da periferia. Caso contrário, nos encontraremos – mais uma vez – com a face mais despudorada, cruel e violenta do poder imperial.

 

Artigo publicado originalmente no site da NUSO. Tradução livre por Lys Ribeiro.

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