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INTEGRAÇÃO REGIONAL

Oito anos de Unasul: a nova integração

Que balanço pode-se fazer da atuação da Unasul na região desde sua fundação até a atualidade?

Por Juan Manuel Karg | Carta Maior | 21/04/2015

Na semana passada, a Unasul (União das Nações Sul-americanas) celebrou seu oitavo aniversário, estabelecida como uma importante iniciativa regional e que teve em Néstor Kirchner seu primeiro secretário-geral, em 2010. Que balanço pode-se fazer da atuação da Unasul na região desde sua fundação até a atualidade? Quais são os próximos desafios desse organismo regional? Por que sua origem não pode ser entendida sem o contexto das jornadas de Mar del Plata em 2005, quando o continente derrotou a Alca?

Unasul

Cúpula Extraordinária da União das Nações Sul-Americanas, no Equador (dezembro de 2014). Roberto Stuckert filho/PR.

Parte-se de uma hipótese: a Unasul foi o ponto mais importante de uma nova integração regional sul-americana. Por que razão? Em primeiro lugar, por ser espaço privilegiado para os três países com maior peso econômico e político do cone sul: Brasil, Argentina e Venezuela, precisamente aqueles que confrontaram com maior vigor a proposta de livre comércio que os EUA pretendiam impor na região. Desta forma, a Unasul foi também um ponto de confluência – e referência – para outros organismos regionais (ALADI, Mercosul, ALBA-Petrocaribe, entre outros) que encontraram ali um lugar de interlocução para pensar uma unidade entre os governos majoritariamente pós-neoliberais.

Em segundo lugar, Unasul teve um rol de destaque na contenção de diversas tentativas de desestabilização política nos últimos anos: Bolívia (2008), Equador (2010) e Venezuela (2014) são alguns exemplos. No primeiro caso, freou-se uma estratégia divisionista dos líderes políticos da chamada “meia-lua boliviana”. O que sucedeu em Quito, após um motim policial, foi uma tentativa de golpe e magnicídio contra Rafael Correa. Em Caracas, no ano passado, violentas manifestações – incluindo as chamadas “guarimbas”, barricadas urbanas feitas pelos participantes – da direita venezuelana que buscavam “a saída” de Nicolás Maduro. Nesses três momentos, o papel da Unasul foi vital: Michelle Bachelet, Néstor Kirchner e Ernesto Samper, respectivamente, organizaram uma rápida resposta a esses conflitos, demonstrando o caráter profundamente democrático do novo organismo.

O terceiro fator é que a Unasul tornou-se o espaço regional que melhor canalizou aquela velha premissa de pensar a integração em todas as suas variáveis: conta com conselhos de defesa, saúde, energia, ciência e tecnologia, desenvolvimento social, economia e finanças, segurança e justiça, educação e cultura. Ou seja, compreende a integração como uma totalidade e não só através de uma perspectiva puramente econômica, como foram pensados historicamente os organismos regionais tradicionais, tanto nesta região como em outras ao redor do mundo.

Em quarto lugar, a Unasul conseguiu se atrelar fácil e até naturalmente com outros novos blocos internacionais, mantendo uma inter-relação crescente com os BRICS, o G77 China e o Movimento de Países Não Alinhados, importantes espaços de vinculação nos quais a América Latina vem tendo um rol de destaque. Pode-se pensar, por exemplo, no importante apoio de todas essas instâncias à luta argentina por recuperar as Ilhas Malvinas, sem visibilizar o trabalho da Unasul em relação a esse tema? É possível analisar a rejeição internacional contra os fundos abutre, no caso da dívida soberana da Argentina, sem as resoluções da Unasul a esse respeito?

Para concluir qualquer balanço é sempre necessário agregar projeções, porque o objetivo é solidificar e fortalecer esta destacada ferramenta. No caso da Unasul, a necessária revitalização do projeto do Banco do Sul é mais imperativa que nunca: este é, possivelmente, o momento de maior complexidade para as economias regionais na última década, considerando também um menor crescimento econômico em escala global. “Tudo já está pronto. Será uma das notícias mais importantes deste ano, a abertura do Banco do Sul”, disse o chanceler equatoriano Ricardo Patiño, em março passado, afirmando que a sede central ficará na Venezuela, e gerando boas expectativas para que o projeto, finalmente, possa se consumar e se transformar num avanço histórico.

Outro que está entre próximos objetivos mais importantes deve ser o de uma participação mais adequada nos diálogos de paz na Colômbia, que tentam por fim a mais de cinco décadas de conflito armado no interior do país. Os encontros em Havana levaram a acordos entre o governo de Santos e as Farc, e existe a possibilidade de que a Unasul finalmente se envolva como bloco, para coroar um novo ambiente na região, tornando-a zona de paz, algo indispensável para seguir avançando em direção a uma unidade e integração regional adequadas para as próximas décadas.

O balanço destes oito anos é mais que positivo, e demonstra uma melhoria substancial das relações na região e da integração em si. O desafio será, então, que a Unasul consolide esses avanços nos próximos anos, impulsando também seus novos projetos. De acordo com o descrito, se é possível ser otimista: o ciclo aberto em Mar del Plata 2005 não só se mantém aberto como pode ganhar ainda mais força institucional.

 

Publicado originalmente por Carta Maior.

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